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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Eu No Tempo!

A sensibilidade do homem para perceber a verdade na criança.


“Algumas pessoas acham que o artista tem que rir tem que encher o vídeo de dentes. Não tenho a menor pretensão de ser coerente. Além do mais, sou feio. E faço letras claras que às vezes, as pessoas demoram a sacar”. (Gonzaguinha).

O cuca chega a sua 4ª edição, passamos por muitas dificuldades até chegar a publicar, recebemos várias cobranças, criticas construtivas com relação à ansiedade dos leitores e tal, tudo isso é muito bom, assim sabemos e nos sentimos felizes em saber que o jornal ta caindo no gosto dos leitores “que também tem cucas livres”.

Escrever pra o jornal é inexplicável, só quem escreve sente. Nessa 4ª edição, escolhi uma música bastante conhecida, de um compositor também muito conhecido, a música se chama O que é, o que é? Seu compositor Gonzaguinha (Luiz Gonzaga do Nascimento Junior) filho do rei baião e de Odaléia Guedes dos Santos, cantora do Dancing Brasil. Desde o ventre já trazia em suas veias o sangue de um grande poeta popular e de um artista, e em sua alma o canto que iria encantar um povo, uma nação. Gonzaguinha era notável, primeiro por ser filho de Luiz Gonzaga e depois consagrado como compositor e intérprete (gravado por Simone, Nana Caymmi, Fagner, Maria Bethânia e muitos outros). Sua mãe morreu de tuberculose, ainda muito moça com apenas 22 anos, deixando Gonzaguinha órfão aos dois anos, e o pai, não podendo cuidar do menino porque viajava por todo Brasil entregou-o aos padrinhos Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e Xavier (Henrique Xavier), o "Baiano do Violão" das calçadas de Copacabana, do pires na zona do mangue, morro de São Carlos, no Estácio, foram eles que o criaram.

As primeiras letras, Gonzaguinha aprendeu numa escola local, mas as verdadeiras lições de vida recebeu pelas ladeiras do morro. Quando garoto, para conseguir algum dinheiro, carregava sacolas na feira e avisava os bicheiros do local, quando da chegada da polícia.
Moleque Luizinho – seu apelido de infância, vivia nas ruas soltando pipas, jogando peladas, bolinha de gudes, pião era uma criança feliz e como tal, sofreu acidentes de infância como as três vezes em que furou o olho esquerdo, fazendo com que perdesse 80% da visão desse olho. No carnaval fugia com Pafúncio, um vendedor de caranguejos que morava nas redondezas e era membro da ala de compositores da Escola de Samba Unidos de São Carlos, a partir daí, o samba estaria definitivamente em sua vida. Gonzaguinha cresceu, entre a malandragem dos moleques de rua e o carinho da madrinha. Do pai, recebeu o nome de certidão, dinheiro para pagar os estudos e algumas visitas esporádicas. Imerso no dia-a-dia atribulado da população, Gonzaguinha ia aprendendo a dureza de uma vida marginal, a injustiça diária vivida por uma parcela da sociedade que não tinha acesso a nada. O aprendizado musical se fez em casa mesmo, ouvindo o padrinho tocar violão e tentando fazer o mesmo. Gonzaguinha ouvia Lupicínio Rodrigues, Jamelão e as músicas de seu pai. Gostava de bolero e era assíduo freqüentador de programas sertanejos. Ouvia também muita música portuguesa, pois D. Dina sua madrinha e mãe adotiva era filha de portugueses e manteve-se ligada às tradições familiares.
Aos catorze anos, Gonzaguinha escrevia sua primeira composição: "Lembranças da Primavera". Pouco mais tarde, compôs "Festa" e "From U.S of Piauí", que seu pai gravaria em 1968 e 1972, respectivamente.

Gonzaguinha seguiu uma linhagem musical totalmente diferente de seu pai. Estudou economia lia todos os jornais e guardava tudo num saco de estopa, ele dizia que esses jornais podiam ajudar nos estudos. Só depois de formado é que ele jogou tudo fora. Trancado no quarto, estudava economia e tocava violão. Quando saía, ia para a praia jogar futebol, sua outra paixão. A vivência da pobreza no Estácio, os problemas familiares e o espírito crítico que possuía, aliados aos estudos na Universidade e ao clima pesado da ditadura militar foram o ambiente onde se desenvolveu um dos mais criativos e inteligentes compositores da MPB contemporânea.

As canções de Gonzaguinha são verdadeiras obras primas, e dessas obras em especial gosto muito dessa “O que é, o que é?”. Ouvi, pela primeira vez à pouco tempo, a uns cinco anos, quando participava de um pequeno grupo de teatro. Lembro-me que Marcelo Faustino, meu amigo e coordenador do grupo, levava a música pra um exercício de relaxamento, e para que pudéssemos refleti-la. Gonzaguinha compôs essa música em meados dos anos 80, a qual foi composta e presenteada a Grande intérprete Maria Bethânia com quem tinha grande afinidade sensitiva e que, segundo algumas línguas, viveram uma história de amor. Inúmeras outras que fez sucesso na voz da intérprete, inclusive as canções mais combativas durante o período militar e até hoje, geralmente seus shows terminam com essa canção. Uma canção que fala sobre a vida, o quanto ela é bela e significativa. Acredito que seu autor, com toda sua carga crítica, sentiu-se inquieto diante do quanto os seres humanos complicam algo tão simples como viver. O quanto a humanidade caminhou para produzir um fenômeno tão nocivo quanto a ganância, que gera as guerras e a fome. Vejo nas calçadas, nas ruas crianças jogadas pedindo esmola pra sobreviver. Passam fome, sentem frio, são marginalizadas, não tem direito a educação, vivem simplesmente largados e sem ninguém. São felizes? Com certeza não, até podem ter alguns minutos felizes: quando ganham uma esmola, um prato de comida, um calçado ou até mesmo um trapinho velho pra se proteger da brisa fria em uma madrugada silenciosa e triste.

Viver e não ter a vergonha de ser feliz... Como é difícil, mas sonhado. A verdade é que vivemos de sonhos, sonhamos em crescer na vida, em ter sorte, sonhamos num amanhã novo, cheio de vida e sem diferenças sociais, mas muitas vezes nos perdemos em tudo isso e limitamos o existir em uma busca obsessiva por se dar bem como se o ter fosse garantia de felicidade plena. Nessa canção, Gonzaguinha faz uma explicação do sentido da vida.

 
“Viver e não ter a vergonha de ser feliz,
Cantar, e cantar, e cantar,
A beleza de ser um eterno aprendiz.
Ah, meu Deus! Eu sei
Que a vida devia ser bem melhor e será,
Mas isso não impede que eu repita:
É bonita, é bonita e é bonita!
 
Como seria entusiasmante se pudéssemos sair cantando sem vergonha a beleza da vida, nos recuamos diante do meio em que vivemos, quantas diferenças, quantos pensamentos diversos. Quantas dificuldades encontramos primeiro em escolher o que queremos pra nossas vidas, temos medo, somos narcisistas, entre tantas outras coisas. Temos vergonha da verdade, e nos firmamos numa sociedade erguida em culpas, hipocrisia e mentiras onde o “socialmente apresentável” é o que importa. Hoje, presenciamos racismo, preconceito, violência e tantas outras mazelas. Tornamos-nos adeptos das coisas que o meio nos impõe e com medo de errar erramos em não ver que somos eternos aprendizes, e esquecemos que em meio às simplicidades é onde encontramos a verdade e a pureza da vida. 
 
“E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?
Ela é a batida de um coração?
Ela é uma doce ilusão?
Mas e a vida? Ela é maravida ou é sofrimento?
Ela é alegria ou lamento?
O que é? O que é, meu irmão?
Há quem diga que a vida da gente é um nada no mundo,
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo,
Há quem fale que é um divino mistério profundo,
É um sopro do criador numa atitude repleta de amor.
Você diz que é luta e prazer,
Ele diz que a vida é viver,
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é, e o verbo é sofrer.
 
O importante no todo, é que a vida é um mistério. E tudo que é misterioso é trágico, cômico, excitante, perigoso. Como animais “racionais”, trazemos em nosso ser a vontade e o desejo de nos conhecer, de derrubar as barreiras que tanto nos fere, que tanto nos amedronta. Pra uns, como Gonzaguinha faz a pergunta: E a Vida?  A vida é definida do ponto de vista de cada momento, do que a pessoa vive, pensa e passa. Ou seja, definimos “A Vida” no fio do que passamos. Se estamos bem a vida é boa, se estamos mal ela é uma desgraça.
 Partindo desse princípio de que cada um define sua vida a partir do que passa, esbarramos no conceito de que somos mesquinhos em limitar algo que é tão maior.
Gonzaguinha morreu aos 46 anos num acidente de trânsito em 1991, mas antes de morrer deixou nesta letra a melhor definição da vida, onde cada um de nós pode viver a vida como quiser. Escolheu como melhor definição para a vida, a resposta das crianças:
 
“Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser,
Sempre desejada por mais que esteja errada,
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,
E a pergunta roda, e a cabeça agita.
Fico com a pureza das respostas das crianças:
É a vida! É bonita e é bonita!
É a vida! É bonita e é bonita!”
 
Engraçado, a poucos dias quando pensava em escrever para o Jornal, sobre essa música em um encontro etílico, entre muitas conversas, Kleber disse:
 - Josa, porque quando tu for escrever teu texto não pergunta a uma criança o que é a vida?
- Eu falei: Poxa! nego que idéia da porra! Vou perguntar a Nega (Beatriz) o que é a vida pra ela.
Assim eu fiz,sabe qual a resposta: 
- A vida é bom!!!!! (E riu).
Nesse momento, entendi a pureza que Gonzaguinha expressava em sua letra. Ele percebeu com seu lado sensível que a resposta de uma criança era a verdadeira face da vida. Ela não tinha medo de falar a verdade, ainda não concebeu ao todo os padrões ditados, portanto está mais perto da essência. 
 
 
Escrito por: Josias Albino
Técnico em Informática e Funcionário da rede privada de Educação.
E-mail: josiasbad@hotmail.com

A Luta de Cada Um!


"tão valente quanto honesta senhora".

Aristides Milton

"Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis." (Journal of a voyage to Brazil)

Maria Graham

Fragilidade, só na tua cabeça.

Ao realizar um resgate sobre a presença das mulheres na história, com o trabalho biográfico percebe-se que a figura do feminino “é discutida por meio de um sujeito que não é o que a representa, mas sim outro sujeito: o sujeito masculino. Que se apresenta sempre como o líder, o inteligente, forte, responsável pelas tarefas mais importantes, o centro.

Na mitologia grega encontramos uma presença muito forte da figura feminina através das deusas Ártemis, Atena, Afrodite, Deméter, Hera, Perséfone, Pandora e Gaia. Mesmo que a inteligência e o pensamento sejam representados pela deusa Minerva (versão latina da deusa Atena), é importante frisar, que esta nasce não do corpo de sua mãe, mas da cabeça de seu pai, Zeus. Este caso demonstra, desde o princípio, a desvalorização da mulher.

Embora a mulher tenha sido desprezada na história, o tema “mulher” não pode ser deixado de ser discutido. Fantasmas de homens extremamente preconceituosos ainda assombram a história da mulher em nosso país. É preciso exorcizar a nossa história, retirar esses espécimes e incrementar a essência de Maria Quitéria em cada um dos brasileiros.

Maria Quitéria nasceu no sítio do Licurizeiro, uma pequena propriedade no Arraial de São José das Itapororocas, nas proximidades de Nossa Senhora do Rosário do Porto de Cachoeira, atual município de Feira de Santana no estado da Bahia. A data mais aceita pelos pesquisadores para o seu nascimento é a de 1792. Foi a primeira filha do Sr. Gonçalo Alves de Almeida e da Srª. Quitéria Maria de Jesus.

Em 1803, tendo cerca de dez ou onze anos de idade, perdeu a mãe, assumindo a responsabilidade dos afazeres domésticos e da criação de seus irmãos. Mesmo com o chamado a responsabilidade muito cedo Quitéria teve uma infância mais ou menos feliz, marcada pelas correrias, caçadas de bodoque aos pássaros, cavalgadas em animais em pêlo.

O Sr. Gonçalo, o pai de Quitéria cinco meses após enviuvar, casou-se novamente com Eugênia Maria dos Santos, que não lhe dá filhos e veio a falecer pouco tempo depois. Foi então que a família mudou-se para a fazenda Serra da Agulha.

Na nova residência, o lavrador Gonçalo Alves prospera; ele não era tão rude e desmantelado. Com terras mais produtivas cultiva algodão e cria gado. Mas a vida ainda continuava isolada, a rotina só era quebrada quando passava algum tropeiro que sempre trazia uma notícia, ou quando resolviam ir a missa, a feira e passear por lugares circunvizinhos.

O Sr. Gonçalo casou-se pela terceira vez, com Maria Rosa de Brito, com quem teve mais três filhos. A nova madrasta, nunca concordou com os modos independentes de Maria Quitéria. Eram freqüentes os desentendimentos. Queria colocar um freio à vida independente da menina, que dizia ser endiabrada. Enchia-lhe de trabalhados domésticos.

Nesse período Maria Quitéria já chamava a atenção de muitos admiradores masculinos, no entanto, ela não via muito futuro nos compromissos insinuados. Embora sem uma educação formal, uma vez que à época as escolas eram poucas e restritas aos grandes centros urbanos, Maria Quitéria aprendera a montar, a caçar e a usar armas de fogo, conhecimentos essenciais à época.

Pelos tropeiros chegam as notícias do Levante da Cachoeira. Quitéria encontrava-se noiva quando, entre 1821 e 1822, iniciaram-se na Província da Bahia as agitações contra o domínio de Portugal. Em Janeiro de 1822 transferiram-se para Salvador as tropas portuguesas, sob o comando do General Inácio Madeira de Melo, registrando-se em Fevereiro o martírio de Soror Joana Angélica, no Convento da Lapa, naquela Capital.

Em 25 de junho, a Câmara Municipal da vila de Cachoeira aclamou o Príncipe-regente D. Pedro como "Regente Perpétuo" do Brasil. Por essa razão, em julho, uma canhoneira portuguesa, fundeada na barra do rio Paraguaçu, alvejou Cachoeira, reduto dos independistas baianos. A 6 de setembro, instalou-se na vila o Conselho Interino do Governo da Província, que defendia o movimento pró-independência da Bahia ativamente, enviando emissários a toda a Província em busca de adesões, recursos e voluntários para formação de um "Exército Libertador".

Contra a vontade de seu pai, Maria Quitéria saiu de casa e, com o auxílio do cunhado José Cordeiro de Medeiros e de Teresa Maria sua irmã, cortou os cabelos, vestiu-se como um homem, dirigiu-se à vila de Cachoeira, onde se alistou (sem que ninguém descobrisse sua verdadeira identidade) sob o nome de Medeiros, no Regimento de Artilharia, permanecendo até ser descoberta pelo pai, duas semanas mais tarde como que por acaso.

Defendida pelo Major José Antônio da Silva Castro (avô do poeta Castro Alves, comandante do Batalhão dos Voluntários do Príncipe (popularmente apelidado de "Batalhão dos Periquitos", devido aos punhos e gola de cor verde de seu uniforme), foi incorporada a esta tropa, em virtude de sua facilidade no manejo das armas e de sua reconhecida disciplina militar. Após se revelar como mulher solicitou que fosse acrescentado ao seu uniforme um saiote à escocesa.

A 29 de outubro seguiu com o seu Batalhão para participar da defesa da ilha de Maré e, logo depois, para Conceição, Pituba e Itapoã, integrando a Primeira Divisão de Direita. Em fevereiro de 1823, participou com bravura do combate da Pituba, quando atacou uma trincheira inimiga, onde fez vários prisioneiros portugueses (dois, segundo alguns autores), escoltando-os, sozinha, ao acampamento.

Em 31 de março, no posto de Cadete, recebeu, por ordem do Conselho Interino da Província, uma espada e seus acessórios.

Finalmente, a 2 de julho de 1823, quando o "Exército Libertador" entrou em triunfo na cidade do Salvador, Maria Quitéria foi saudada e homenageada pela população em festa. O governo da Província dera-lhe o direito de portar espada. Na condição de Cadete, envergava uniforme de cor azul, com saiote, além de capacete com penacho e com o seguinte pronunciamento:

"Querendo conceder a D. Maria Quitéria de Jesus o distintivo que assinala os Serviços Militares que com denodo raro, entre as mais do seu sexo, prestara à Causa da Independência deste Império, na porfiosa restauração da Capital da Bahia, hei de permitir-lhe o uso da insígnia de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro".

Quitéria agora era uma Mulher feita, legalmente emancipada, sabendo bem o que quer, Maria Quitéria consumia-se de amor pela Pátria prestes a nascer. Assumindo a sua condição feminina, livra-se, por fim, dos constrangimentos da simulação. É, doravante, o soldado Medeiros, nome com que se apresentara à tropa. Os milicianos, a princípio ousados, aprendem a respeitá-la. Por baixo, aquele soldado de voz macia veste saias, mas é homem, na coragem, no trato, no companheirismo. Quitéria torna-se exemplo e, mais que isso, mascote da tropa interiorana de resistência.

Segundo Hélio Pólvora no seu recente livro intitulado “A Guerra dos Foguetões Machos”, lançado em Portugal, mesmo depois de Quitéria ter lutado tão bravamente pelo seu país, conseguido derrotar os portugueses e manifestado sua força e coragem, ainda tinha receio pra voltar a sua parentela.

Foi então que em ocasião de uma cerimônia de sua condecoração que aproveitou a oportunidade para que o imperador intercedesse pelo perdão de seu pai, pois como a mesma disse: -“Fui desobediente”.

Com a carta de recomendação do punho do próprio imperador Quitéria retornou a sua terra. Ao ser avistada pelo pai e por sua madrasta foi imediatamente recriminada, todavia, permitiu-lhes que antes de qualquer falatório lessem a carta que trazia.

Os olhos do pai se encheram de lágrimas e o peito de satisfação ao ver as letras do próprio imperador intercedendo por sua filha Quitéria.

Perdoada pelo pai, Maria Quitéria casou-se com o lavrador Gabriel Pereira de Brito, o antigo namorado, com quem teve uma filha, Luísa Maria da Conceição.

Viúva, mudou-se para Feira de Santana em 1835, onde tentou receber a parte que lhe cabia na herança pelo falecimento do pai no ano anterior. Desistindo do inventário, devido à morosidade da Justiça, mudou-se com a filha para Salvador, nas imediações de onde veio a falecer aos 61 anos de idade, quase cega, no anonimato. Desconhece-se o local de seu túmulo.

A partir da volta de Maria Quitéria à boca do sertão Baiano, a história se estreita, se encurta tanto que fica difícil biografá-la. Pode-se dizer que Maria Quitéria morreu esquecida, aos 61 anos. Não teve o mausoléu como é de praxe aos heróis. Ignora-se onde está o túmulo.

Muitos questionamentos podem surgir na mente do leitor como por que essa camponesa quase analfabeta, tornou-se uma guerreira? Que questões eram essas que a levaram a arriscar sua própria vida? Seria apenas o civismo?

Talvez, as palavras da própria Maria Quitéria ajude o leitor a desvendar esse mistério quando diz:

“(...) uma voz secreta me sopra que também luto por mim. Estou guerreando, sim, para libertar Maria Quitéria de Jesus Medeiros da tirania paterna, dos sofridos afazeres domésticos, da vida insossa. Ah, eu combato, com água no nível dos peitos, pela libertação da Mulher, pela nova Mulher que haverá de surgir (...)”.

O leitor já conseguiu desvendar?

Pensem na mulher Quitéria reprimida de sentir, na sua situação de ser uma mulher normal, padrão, sem apetites, sem certas ânsias, certos movimentos de alma, aquelas perturbações interiores, aquele mal-estar permanente que são atribuídos à adolescência e à entrada, sem definições claras, na vida adulta.

Quando a maioridade chegou, Maria Quitéria está sem realização pessoal digna de seus sonhos que eram sepultados antes de nascer. E ela há de ter compreendido que, somente dela, e não dos outros, há de vir a desejada definição existencial e, em conseqüência, a paz de espírito. Maria Quitéria alcança, assim, a hora crítica de sua vida no instante em que Pedro I é pressionado pelas Cortes portuguesas, que desejam sufocar movimentos libertadores no Brasil, e Cachoeira, a Heróica, antecipa a Independência.

Temos, então, que a libertação do Brasil coincide com a libertação de Maria Quitéria. De um lado, a Pátria jungida que procura arrebentar correntes; de outro, a camponesa aprisionada ao patriarcalismo familiar sertanejo. Uma e outra querendo a liberdade, dispostas a morrer por sua cidadania.

Emancipava-se o Brasil, emancipava-se a Mulher brasileira.

Ofereço esse texto a todas as mulheres que sacrificaram suas vidas para que as presentes mulheres tivessem oportunidade de trabalho, licença maternidade, salário fixo, redução na jornada de trabalho, respeito pelos seus cônjugues, espaço na política, educação, economia, religião e formadoras de um Brasil menos opressor.

Escrito por: Daniel Ferreira

Professor de História e Especialista em História do Nordeste

Prof_daniel.al@hotmail.com

Vista de Um Ponto

O desafio de conviver com as diferenças

Somos um povo tolerante? O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) deste ano se propôs a discutir o desafio de conviver com a diferença. O tema da redação que pode facilitar o acesso de muitos jovens à universidade é bem explícito e considerado bom, pois leva a pensar em um conceito de convivência humana pacífica. Especialmente, num país em que se queima índio em praça pública da Capital Nacional, se maltrata empregada doméstica e se diz que confundiram-na com prostituta, em que atores “globetes” desrespeitam garota de programa e travesti, faz-se necessário uma reflexão sobre a convivência. Não dá pra “con-viver” se não se respeita a diferença. Mas de qual diferença estamos falando? Sabemos que o Brasil é enorme, há diversidade de culto e cultura, desigualdade financeira, sexual, étnica e outras.

Saber conviver é uma arte que todos nós deveríamos aprender desde a mais tenra idade, no entanto, na lei do mais forte, muitas vezes, somos impelidos a nos associar a quem tem mais poder e força e ser ou querer ser um deles. Precisamos saber conviver em família, nosso primeiro grupo social, na escola, na roda de amigos, na igreja a qual pertencemos. Porém, temos que ter nossas particularidades, queremos ser únicos, mas nos vestimos e agimos como a maioria da moda para sermos considerados iguais.

Neste aspecto, se partirmos do pressuposto de que a única coisa que temos de igual é o fato de sermos diferentes uns dos outros, vamos ter que nos acostumar e valorizar as diferenças de cada um, pois são elas que tornam toda pessoa única e especial. A proposta da referida prova oferecia duas músicas cujos títulos sugeriam posições diferentes acerca do tema, mas que convergiam para o fato de haver a diversidade cultural e social e ao mesmo tempo a nossa dificuldade de conviver harmoniosamente com ela.

Num país continental como o nosso, é fácil encontramos tantas diferenças, exemplo disto é que a mesma língua falada (o português) apresenta particularidades que diferenciam os falantes no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul ou no Rio Grande do Norte. A língua é um fator de unidade nacional, no entanto ela também pode ser variada e nessa variedade tudo toda forma precisa ser valorizada.

Um outro fator de diversidade é a religião. Não há uma que seja a oficial no Brasil, mas a maioria das pessoas é de crença cristã, católica (mesmo quem não pratica religião se diz católico). Há também as diversas correntes protestantes, os variados níveis de espíritas e outras tantas religiões. Nelas reina uma intolerância enorme, pois cada qual que afirme que a sua é a única que salva em detrimento das demais.

A diversidade cultural expressa por brasileiros de norte a sul é proveniente da mistura de raças que forma nossa nação, somos africanos, europeus, índios, asiáticos. Formamos uma cultura cheia de valores diferenciados e que devem ser respeitados porque dão a cada um de nós a certeza de que “ninguém é igual a ninguém”. Essa mistura cultural é tão necessária ao ser humano quanto a diversidade biológica e precisa ser considerada como um fator de enriquecimento. Somos um país riquíssimo culturalmente.

Além de exigir que os estudantes concluintes do Ensino Médio apresentem um texto coerente nos aspectos discursivos e gramaticais, obedecendo à norma padrão da língua, a proposta de redação requeria do candidato que fossem respeitados os direitos humanos e sugeridas intervenções consoantes ao tema. Apesar de haver muitas deficiências na formação dos nossos educandos esperava-se que os mesmos fossem capazes de defender seus pontos de vista com argumentos competentemente selecionados e propostas que visassem o respeito às diversas expressões culturais sociais e religiosas, políticas e de inclusão social possibilitando trocas benéficas ao enriquecimento mútuo. Afinal de contas somos realmente únicos, especiais e diversos. “Há tantos quadros na parede, há tantas formas de se ver o mesmo quadro/ Há tanta gente pelas ruas/ Há tantas rua e nenhuma é igual à outra” (Engenheiro do Havaí).

Emanoel Lourenço – Professor

Emanoel_lourenco@hotmail.com

Cerujoaofrancisco.blogspot.com

Vento e Raiz

São Vicente Férrer, pai de nossas raízes.


São Vicente é para mim como um pai no sentido mais simples da palavra, se isso for possível, onde só tem o papel mais efetivo na procriação, nos outros momentos se abnega da responsabilidade e é de uma parcialidade perene, que pouco se envolve na educação e na formação do caráter do filho, em vez de ensinar-lhes a refletir e a ter liberdade (política, religiosa) reprimi-o e não investe no futuro de sua prole. Mas então tenta compensar, como se fosse possível, presenteando com algumas festas e o filho resignado e contente se submete pelas migalhas de "amor" do pai.

O triste é que não estou sendo pessimista, mas realista, e em conseqüência dessa negligência acometida contra os filhos dessa terra, os que tem o sonho e desejo de se libertar desses estribos, acabam se refugiando lugares a procura de algo maior, que de lá nunca viria. Deste modo, expulsos pelas condições desfavoráveis, somos jogados numa realidade diferente, que não estávamos preparados, com regras de trato social e valores bem particulares. Inseridos nesse contexto, a dor e a solidão dos vínculos deixados nos torna pequenos numa selva de pedra.

Leva-se um choque diante do novo que se apresenta de duas maneiras distintas: a primeira é a montanha de oportunidades culturais que se aflora de todos os lados e em segundo contrapondo-se, a "violência" que se mostra feroz e nos faz amigos íntimos do medo, nosso companheiro inseparável, levando-nos a temer crianças, vítimas marginalizadas. O problema é de tal ordem que estamos sujeitos ao encontro inevitável com a senhora do nosso destino a "morte", seja ela a nossa ou a de outrem ao dobrar a esquina ou vista de uma janela de ônibus, vendo o futuro de um homem, que minha lógica insiste, poderia ser o meu, no chão do asfalto e sua massa encefálica escorrendo e dele se esvaindo seus sonhos, seus ideais sua esperança.

É essa as duas vias que nos deparamos ou ficar na "segurança" do pai com uma vida medíocre se arrastando e se humilhando por migalhas, salvo algumas exceções, ou a exposição ao perigo em detrimento da realização profissional, para uma vida melhor. E assim desperdiçar os talentos ao permitir que outros vão embora sem contribuir efetivamente para o desenvolvimento da cidade.

O CERU porta de saída dos jovens, embora pouco valorizada, tem melhor rendimento e qualificação profissional do que muitas escolas metropolitanas, logo os alunos dela provenientes estão em melhores condições, mas estão se evadindo para os grandes centros urbanos. Esse fato é muito importante porque comprova o empenho dos professores em ensinar com entusiasmo e competência e associado ao laço afetivo que todos têm com a escola, faz dela um referencial de São Vicente Férrer e motivo de orgulho.

Eu amo esta cidade, mas me odeio por não conseguir odiá-la pelas razões supracitados, pois as qualidades superam os defeitos. E as qualidades para mim se configuram nas pessoas (família, amigos, professores) que tiveram um papel fundamental para meu desenvolvimento e dos quais sem eles minha vida seria um vazio, pois contribuíram para moldar meu caráter e minha educação, portanto devo a cada um de modo diferente: meu amor, meu respeito e meu agradecimento.

Maria Clara Batista da Silva
E-mail: clarinha.batista@hotmail.com
Profissão: Professora da rede Metropolitana do Recife.

Umas Palavras


Padre Tadeu Pabis (Ex-pároco e Cidadão Honorário)

Data: 04/09/07

Local: Sua Residência (Rua: João Pessoa).




Cuca Livre: O senhor é polonês de nascimento. Conte-nos um pouco de sua infância e o despertar do sacerdócio em sua vida?

Pe Tadeu: Minha infância foi muito sofrida. De vida no campo e de família humilde. O pai faleceu deixando quatro filhos pequenos. Eu, o mais velho, tinha apenas 7 anos, trabalhando muito com a mãe para manter a família.

O despertar da vida sacerdotal foi desde muito pequeno, mas a decisão já foi na vida mais avançada quando tinha 27 anos, mais ou menos, já havia servido nas Forças Armadas, 2 anos no máximo, trabalhando e fazendo curso de segundo grau por correspondência. Agora, as famílias na Polônia, muito religiosas, então essas coisas também me ajudaram na realização de minha vocação para ser um dia padre.

Cuca Livre: O senhor presenciou a invasão Nazista na Polônia durante o período que abrange a Segunda Guerra Mundial? Como foi acompanhar isso e quais as lições que esses acontecimentos lhe deixaram?

Pe Tadeu: Sim, como adolescente, 10 anos mais ou menos. Inicialmente achava tudo isso como brincadeira, até andando assim, no meio do exercito alemão. Depois quando entendi, eu vi tudo assim: com tristeza, revolta, crueldade, destruição. Teve muitas mortes e isso é triste.

Cuca Livre: Porque a decisão de o senhor vir trabalhar no Brasil?

Pe Tadeu: no seminário maior que estudei se falava muito na falta de sacerdotes em certos continentes, como África, Extremo Oriente e América do Sul. E no seminário na Polônia veio uma vez um bispo alemão do Brasil, do estado de Pernambuco,de Floresta. Era amigo nosso e convidou alguns seminaristas, alguns padres que queriam viajar para o Brasil para trabalhar. Eu decidi entre outros quatro, me prontifiquei a vi, depois de terminar os estudos e me ordenar. Já fazia Curso Superior de Sociologia. Quando decidimos vi para o Brasil, enfrentamos muitas dificuldades para conseguirmos o visto do governo, que na época era comunista e não deixava fácil a saída de padres. Havia muita perseguição religiosa.

Cuca Livre: A propósito, o Regime Comunista Funcionou na Área Social, independente da intolerância religiosa?

Pe Tadeu: Sim, na área social funcionou bem, havia saúde, educação e trabalho para todos, os salários não eram grandes, dava para viver dignamente. A minha mãe, quando adoeceu, o helicóptero do governo veio buscá-la em casa para levá-la até Cracóvia para se tratar. Não havia mendigos nas ruas, mas a perseguição religiosa era grande. Até hoje na Polônia muitas pessoas sentem saudades do Regime Comunista.

Cuca Livre: Faz 20 anos que o senhor vive em São Vicente. Quando chegou aqui, quais as maiores dificuldades para trabalhar na comunidade?

Pe Tadeu: Eu comecei o trabalho aqui nesta diocese depois de trabalhar em Floresta. Em Vicência, depois em Itambé, de Itambé para São Vicente. Então aqui, a paróquia por muito tempo não tinha um pároco fixo, residente aqui, dependia geralmente dos padres que vinham principalmente de Macaparana. Então isso já é motivo de vir para cá. Também nesse caso, a paróquia meio desorganizada, sem a organização necessária, organização de movimentos. Os padres de Macaparana, ou de outros lugares não podia atender a tudo, porque eram provisórios, mas quando cheguei, eu gostava de assumir uma paróquia e de fazer alguma coisa, mas assim, como padre estrangeiro, sem saber ainda falar direito, sempre tive dificuldade de reorganizar, digamos assim, a vida da paróquia com todos os movimentos, com todos os problemas, mas com a ajuda do povo, de certas pessoas, aos poucos fiz alguma coisa.

Cuca Livre: O que mais lhe alegra e o que mais lhe entristece com relação a São Vicente Férrer?

Pe Tadeu: O que mais me alegra é ver que a comunidade de São Vicente Férrer está em constante desenvolvimento social, cultural, religioso, religião mais amadurecida. Agora o que mais me entristece é que ainda há pobreza, falta de trabalho, o pessoal sem trabalho. Assim, um povo alegre, cheio de vida, queria viver mais alegre, mas não pode porque não tem a possibilidade de se desenvolver totalmente, e possuir aquilo que precisa para sua vida, para sua felicidade, assim como deveriam viver todos os homens no mundo inteiro.

Cuca Livre: O que o senhor gostaria de ver na cidade que foi plano seu durante o tempo que era sacerdote oficial da comunidade e que por ventura não deu tempo de realizar ou não foi possível realizar?

Pe Tadeu: Além de ver a paróquia um pouco mais estruturada, ver também a matriz, a igreja mãe, mais segura, mais bonita, com gradeamento. Eu comecei até naquele tempo já, esse trabalho, mas infelizmente não deu tempo para levar à cabo esse trabalho e graças a Deus, padre Vieira fez.

Cuca Livre: Sabemos que as igrejas, além do papel espiritual, têm um grande compromisso social. O que o senhor considera elemento principal na missão social da igreja?

Pe Tadeu: A defesa, a defesa dos mais fracos, dos mais pobres, dos injustiçados. Ajudando-os nos casos concretos, não só falando, mais realmente ajudando essas pessoas concretamente, sendo amigo de todos, não só dos grandes, dos importantes desse mundo, mas ser amigo de todos. Diante de Deus somos iguais, somos irmãos, e devemo-nos assim tratar. O padre, nesse campo social, deve tratar todos como seus amigos, de preferência os mais pobres.

Cuca Livre: Como foi para o senhor receber o titulo de cidadão honorário vicentino, depois de 20 anos aqui na cidade?

Pe Tadeu: Muita surpresa, uma grande surpresa, porque eu não pensava que isto ia acontecer, que eu não fiz tantas coisas importantes para merecer um titulo de honra e de distinção. Então eu me senti feliz, me senti alegre cada vez mais, é que o povo reconhece que fiz alguma coisa que pelo menos agrada o povo. Eu vim de uma família pobre e sempre procurei ajudar os pobres, por lembrar minha mãe que sempre me dizia e me falou quando vim para o Brasil: - “Filho, não se esqueça dos pobres... (pausa: muito emocionado, chorou e pediu um momento)” a minha mãe sempre me dizia: - “Filho, você sofreu, (pausa) você passou fome, não se esqueça lá no Brasil, dos pobres. Procure ajudar os pobres do Brasil, (pausa) por isso procurava ajudar (emocionado)”.

Cuca Livre: Por que a decisão de não voltar à Polônia para viver aqui, mesmo depois de já está aposentado do cargo?

Pe Tadeu: A minha decisão não é de hoje, já é de algum tempo. Eu sempre desejava terminar minha vida lá onde trabalhei, no Brasil. Então quando sai da Polônia, já era no santino (como se chama), quando da minha ordenação, eu já escolhi, esse trecho da Bíblia “saia do seu povo (no Antigo Testamento) – sai do seu povo vá ao povo que lhe mostrarei etc., etc.,”Então,pensando nisso,quando escolhi o Brasil,como missionário,e eu não estou assim,muito amarrado ,muito ligado à bens materiais,pois mais cedo ou mais tarde,nós vamos deixar tudo isso.Então,eu queria assim, ficar onde trabalhei,eu quero aqui ficar.Quando me aposentei,ainda era Dom Jorge o bispo,ele me falou:Você escolhe o lugar onde quer ficar, para viver, para residir, para ajudar os outros. Você não quer ficar em São Vicente? Você gosta, um lugar bom, um povo bom, então eu disse: ta bom, eu vou ficar lá. Então, minha decisão não foi de agora, foi desde que cheguei aqui e é aqui que eu vou ficar.

Cuca Livre: Quais as suas perspectivas com relação à cidade e ao povo vicentino?

Pe Tadeu: É claro que São Vicente Férrer têm as maiores possibilidades porque a terra é boa nesta região, tem muita água suficiente para tudo e povo também tem boa vontade de trabalhar, de produzir e depois se manter. Com os nossos governos, o governo lá em Brasília, ou em Pernambuco, e aqui na cidade, no município, com governos que estejam cada vez mais voltados para atender as necessidades do nosso povo, pode conseguir esse progresso, essa felicidade para todo o povo, porque o povo merece ser feliz. Eu fico assim triste, porque o povo quer se vestir bem, quer comer bem, quer fazer uma coisa alegre, ser alegre na vida, mas não pode porque às vezes não tem o que comer, e esse povo merece. Vendo a Europa por exemplo, que tem muita gente, que tem tudo e aqui tem muita gente que trabalha e queria viver como gente, mas não pode, porque as vezes não tem dinheiro, não tem o que comer e esse povo merece. E os governos deveriam se voltar para esse povo que trabalha, que produz e que quer ser feliz.

Bate Bola

Cuca livre: O mundo?

Pe Tadeu: Muito Melhor, queria que fosse para todos.

Cuca livre: As pessoas?

Pe Tadeu: Que todos sejam pessoas amigas

Cuca livre: uma tristeza?

Pe Tadeu: O dever não cumprido.

Cuca livre: Uma possibilidade?

Pe Tadeu: A Paz entre os homens e povos.

Cuca livre: Um gesto?

Pe Tadeu: Amor, doação.

Cuca livre: Uma palavra?

Pe Tadeu: Deus, porque em Deus se resume tudo.

Cuca livre: Uma frase?

Pe Tadeu: “Tudo posso naquele que me dar conforto, que me fortalece”

Cuca livre: Um sonho?

Pe Tadeu: Justiça social para todos.

Liberducação

“Pátria que me Pariu”.

A primeira semana de setembro dos meus tempos de escola era uma farra nacionalista, confecções e pinturas da Bandeira Nacional, ensaios exaustivos da entoação do Hino, aulas de História, há as aulas de História! Figuravam na boca das professoras os “grandes feitos” dos “Heróis” nacionais, ou os vultos da pátria como eram conhecidos.

Nós, todos pequenos, devaneávamos na idealização imaginária de D. Pedro I sobre o cavalo, empunhando a espada e gritando para o nada: “Independência ou Morte”. Cena lendária, carregada de saudosismo que tentávamos reproduzir com nossos chapéus e espadas de jornal, nos recreios da semana da pátria.

O grande dia era o 7 de setembro, a culminação das atividades, banda marcial, a célebre baliza, os filhos dos mais abonados iam de destaques, caracterizados dos “Heróis” da Pátria que nos Pariu. Tinha Tiradentes, D. Pedro I e II, a princesa Isabel, geralmente ladeada de crianças negras vestidas de escravos, mais com os braços levantados mostrando as correntes partidas.

Era um espetáculo! O povo nas calçadas se acotovelando e as mães dos destaques sempre à apostos com toalhinhas para enxugar o suor e garrafas de água para refrescar a exaustão de seus pequenos pupilos, mas tudo se aliviava nas tricotagens à respeito do quanto se gastou em dinheiro na fantasia dos filhos.

Depois da macha ordenadazinha, marcadazinha, padronizadazinha, paravam os pelotões em “posição de sentido” para hastear a bandeira e cantar o hino, não importava o sentido da letra, o negocio era não errar e não fazer feio.

Para fechar a celebração, engolíamos goela abaixo os discursos dos políticos no palanque montado. Seu fulano de tal pega o microfone e era aquela verborragia:

- Tico-Tico-Teco-Teco... A constituição...

- Tico- Tico-Tico-Tico... A pobreza...

- Teco-Teco-Teco-Teco... O povo... O Brasil... A Independência depende de mim...

Voltando para casa, as crianças exaustas, já com o conga azul na mão e os adultos conversando:

- Tu visse seu fulano como falou bonito?

- Vi, mas me desviei uma horinha pra olhar esse diabo desse menino, o que foi que ele disse mesmo?

- sei não, só sei que falou foi bonito. Aquilo é que é um homem para se dar um voto.

Pronto! Esse era o nosso 7 de setembro, marcado pela futilidade, pela mentira, pelo oportunismo, pela ordenação e principalmente pelo silêncio, pois falar numa hora como aquela era desrespeito à nossa pátria mãe gentil. Ninguém se dava conta de que essa “mãe” já tinha abortado tantos filhos, vendido tantos outros, desconhecido a maternidade de muitos, dado muito a muito poucos e matado tantos de fome, de abandono, de desatenção, de privação.

Ainda hoje há quem não se pergunta: Ordem em que sentido? E Progresso para quantos? Há quem se sinta extremamente nacionalista e canta de mão empalmada sobre o peito e de olhar fixo no horizonte: “Verás que um filho teu não foge à luta, bem teme quem te adora a própria morte. Terra adorada...”. E a todo momento esses são quem geralmente traem a pátria, quando não faz caso na figura do menos favorecido que é quem sempre paga mais caro, trai a pátria quando se omite a lutar. A falar, a denunciar erros. Que cultura é essa? Precisamos perpetuar para sempre essa hipocrisia? “O jeitinho brasileiro”? O “tudo acaba em pizza”? O apadrinhamento? O pistolão? O nepotismo?... Etc.etc.etc...

A escola, a educação têm um papel fundamental na nova pátria que precisamos formar, a pátria é cada um de nós mais humanizados, mais coletivos, mais conscientes. A escola precisa ensinar ao aluno que independência se conquista desde cedo, que uma nação de verdade se começa com justiça social, que não precisamos de “HÉROIS” que de “CIMA PARA BAIXO” tomem as decisões e a gente fique só para aplaudir, servir de volume, ou de “bucha de canhão” para empreender e realizar as grandes empreitadas que eles não conseguem fazer sozinhos.

A escola precisa contar para o aluno que o “Grande Acontecimento de 7de setembro de 1822” foi um grande acordão. A independência do Brasil era “favas contadas” e D. Pedro já havia sido alertado pelo pai D. João VI, rei de Portugal, quando disse-lhe: “Meu filho, faça a independência antes que um aventureiro o faça”. Era melhor tudo ficar entre família, e Portugal para reconhecer essa tal independência de sua ex-colônia, exigiu pagamento de dois milhões de libras esterlinas, quantia que o Brasil não tinha, mas o novo imperador tomou emprestado com a Inglaterra, que depois recebeu com tantos juros e correções monetárias que quase expõem as tripas do povo brasileiro já tão exausto de exploração.

E hoje?Que independência temos para comemorar? Vamos celebrar o quê? A exclusão social? Os mensalãos da vida? Os grandes exemplos de ética na política? Os Renans Calheiros do Senado? Tudo isso sem falar na escorchante dívida externa que só com os juros que pagamos, dava para dar uma guinada na saúde e na educação. Sem falar também na permanência do latifúndio intocável pelo governo do ex-operário tão afeito aos movimentos sociais e aos sem terra,sem teto,sem nada.

A escola tem a obrigação de fazer o aluno enxergar o mundo em que vive de maneira crítica, e agir sobre essa realidade na perspectiva de mudá-la. A semana da pátria deve ser um dos períodos de reflexão, de debate, de confronto de idéias, de analises, de luta, de ir para a rua e ensinar o aluno a lutar por direitos, de mostrar para a sociedade que estudante não é imbecil, que escola é um grande agente social.

O 7 de setembro é data para mostrarmos que somos brasileiros passíveis de construir uma consciência de nossas falhas e limitações, porém não nos conformamos e estamos aptos para mudar, para construir de fato uma sociedade mais inclusiva. O 7 de setembro é dia de construir a independência que ainda não temos, e não esconder nossas vergonhas sociais com plumas e paetês.

Escrito por: Kleber Henrique

E-mail:prof_kleber_henrique@hotmail.com"

Professor de História


Balanço Legislativo

Balanço Legislativo Municipal

Mês: agosto/2007

Fonte: Livro de Atas da Câmara Municipal de São Vicente Férrer (Casa Benigno de Moura)

Parlamentares: Antonio Manoel Marx Filho, Fernando Mendes Ribeiro, Maria Silvana Cavalcanti, Paulo Barros de Farias, Senaquerib Coutinho (Vice Presidente), Vicente Férrer de Albuquerque, Luiz Gonzaga da Silva (Presidente), Geudi Barbosa da Silva, José Elias da Silva.

02 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

O presidente, diante dos presentes autorizou a leitura do expediente, o qual constou o oficio nº. 180/2007 encaminhado à casa juntamente com o projeto de Lei nº. 03/2007 dispondo sobre a revisão do Plano Plurianual 2006/2009. O oficio 181/2007 encaminhado juntamente com o projeto de Lei nº. 04/2007 dispondo sobre as diretrizes orçamentárias para 2008. ambos de autoria do chefe do poder executivo municipal.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Fernando Mendes: falou sobre a nova eleição do Conselho Tutelar, que acontecerá no próximo domingo, em suas colocações disse ter sido criado no meio do conselho uma politicagem absurda o que para o nosso município é uma vergonha, por ser uma eleição independente. Citou a falta de carros de som convocando a população – ainda sobre isso citou que a intenção era prejudicar o candidato César, e solicitou que a população comparecesse. Ainda demonstrou indignação com o projeto “CHAPÉU DE PALHA” onde muitos se inscreveram e não receberam nada. Criticou as atitudes do Poder Executivo por destruir parte da praça, porque existe uma lei aprovada pelos vereadores autorizando o prefeito a doar qualquer órgão público, e isso ele já está fazendo, só que doando a quem já tem, onde deveria beneficiar quem não tem.

· Vereador Geudi Barbosa: disse está feliz com a realização do projeto sobre a floricultura na Chã do Esquecido, lamentou o mesmo não ter sido realizado em Siriji, devido o clima não favorável. Falou da extensão da água que está sendo feita na escola de lajinha, a criação de poços artesianos em Siriji e a reforma do prédio para aulas de informática. Convidou a população a participar das eleições do Conselho Tutelar e afirmou que o carro de som estava divulgando os candidatos.

· Vereadora Maria Silvana: começou sua fala dizendo que a respeito do Conselho a realidade não condiz com o que foi dito pelo vereador Geudir Barbosa, pois já se deu entrada na justiça para que os conselheiros recebam salário mínimo. Disse estar indignada com a ação do prefeito em começar a destruir a praça e que foi contra a aprovação da lei nº. 711/02 de 23/dez/ 2002 que dá direito ao prefeito de fazer doações de prédios públicos. Solicitou usarem espaço na Rádio Comunitária Capibaribe Mirim FM e que o diretor da mesma, esclarecesse porque a cobrança de dinheiro já que a mesma é de utilidade pública.

· Vereador Paulo Farias: disse perceber o clima de preocupação, pois já que estavam incomodados com a atuação do prefeito e que o mesmo não faz o que quer, e sim, cumprir a lei. Quanto a parte destruída da praça, estão se precipitando antecipado, deveriam esperar a conclusão do que vai ser feito ainda para depois comentarem. Concluiu dizendo que a Rádia estava sim divulgando as eleições do conselho.

· Vereador Senaquerib: parabenizou Paulo Farias pelo mesmo ter dado a resposta adequada aos vereadores da oposição. Quanto a eleição do conselho, disse ser um ato democrático. E com o Chapéu de Palha o trabalho era honesto.

· Vereador Vicente Férrer: pediu que a casa cumprisse com a lei estadual em seu art. 123 § 3º e colocasse no quadro o relatório fiscal e o boletim da tesouraria. Em seguida falou do Jornal Cuca Livre, elaborado por Daniel, Josias e Kleber e que é de grande valor cultural. E quanto às eleições do conselho era necessária escolher bem os candidatos.

· Vereador Antonio Manoel: disse que no segundo semestre nos trabalhos da casa esperava mais participação das comissões nas reuniões. Gostaria que nas eleições do Conselho fossem eleitos um representante de cada localidade e que a casa legislativa estava à disposição do conselho. Terminou parabenizando o prefeito pela restauração de estradas.

Ordem do dia: Única discussão e votação da Indicação nº. 26/07 de autoria do vereador Vicente Férrer sobre a regulamentação dos agentes de saúdes. Essa indicação é uma seqüência do que acontece na Câmara Federal. A Indicação foi aprovada por unanimidade e enviada para que o prefeito elabore o referido projeto de regulamento dos agentes de saúde para que a câmara possa aprovar e garantir o direito desses trabalhadores.

09 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

Após a leitura do expediente ao projeto de lei n°. 03/2007 de autoria do chefe do poder executivo municipal, dispondo sobre a revisão do Plano Plurianual 2006/2009 para o exercício de 2008. As comissões aprovaram o projeto. Os trabalhos prosseguiram com a Indicação nº. 031/2007 de autoria do Vereador Fernando Mendes, encaminhado apelo ao Sr. prefeito de que seja construída uma praça no terreno próximo ao Ginásio-Poliesportivo no Loteamento Pe. Nazareno.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Geudi Barbosa: informou sobre convênio firmado entre a prefeitura municipal e o IBAMA, destinado à implantação de uma área de lazer, pista de Cooper e núcleo de educação ambiental, onde terá biblioteca, produção de mudas e área para a prática de caminhadas. Isso no distrito de Siriji.

· Vereador Senaquerib: disse ter conhecimento dessa luta antiga do Sr. prefeito para que tal pleito se concretizasse e que foram muitas as reivindicações do povo de Siriji.

· Vereadora Maria Silvana: comentou sua alegria com os eleitos para o conselho tutelar e que tudo só a havia corrido bem nas eleições em conseqüência das cobranças feitas na seção passada. Dirigindo-se aos conselhos eleitos presentes, disse que a bancada de oposição estava à disposição do conselho.

· Vereador Vicente Férrer: solicitou ao Sr, presidente que autoriza-se copias do Relatório Resumido da Execução Orçamentária 3º bimestre/2007 da prefeitura municipal, as quais foram autorizadas pelo presidente. O vereador se congratulou com os conselheiros eleitos. Mostrou que há necessidade de se destinar no orçamento para 2008 recursos para o conselho tutelar e que, caso o prefeito não se pronuncie, esta câmara com a contribuição do assessor parlamentar elabore uma Emenda ao orçamento para dá condições de trabalho aos conselheiros.

· Vereador Antonio Manoel: apelou aos companheiros de bancada para reivindicar junto ao prefeito, providenciais sobre a falta de iluminação no trecho próximo à casa do vereador Senaquerib Coutinho em Siriji, pois esse problema causa insegurança à população que sai à noite.

· Vereador Senaquerib: disse ser necessário a união dos quatros vereadores de Siriji para cobrar essa solução e que o orçamento geral ficava em torno de 20 mil reais. Referiu-se ao discurso do vereador Vicente Férrer sobre o conselho tutelar e concorda que se deve cobrar dotações. Disse serem os vereadores a favor no aumento do salário dos conselheiros.

· Vereador Fernando Mendes: criticou o canal que foi dado inicio na frente do CERU há mais de um ano e não foi concluído. Comentou a indicação nº. 031/2007 de sua autoria. Fez apelo à Secretaria de Obras para que tomem providencias sobre a escola de Cana-Brava, a qual se encontra em precárias condições e citou a necessidade de iluminação nas imediações da rodoviária. Fez criticas à desorganização das eleições do conselho tutelar e a falta de divulgação. Ressaltou a necessidade de aumento dos salários dos conselheiros.

Ordem do Dia:

Indicação nº. 26/07 de autoria do vereador Vicente Férrer, o qual solicita do Sr. Prefeito, que seja feita alteração no art. 51 da Lei Municipal n° 724/2004, ampliando a duração da licença à gestante. Após a discussão foi aprovada por unanimidade.

16 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

Iniciou-se a leitura do expediente: Ofício nº. 193/07 e projeto de Lei nº. 05/2007, o qual solicita autorização para o Poder Executivo abrir crédito especial e da outras providencias. Indicação nº. 32/2007 de autoria do vereador Geudi Barbosa formulando o apelo ao Sr. Prefeito no sentido de que sejam construído sanitários na Zona Rural e Urbana que não os possua.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Fernando Mendes: criticou o calçamento da avenida Miguel Arraes (Siriji) por ser de péssima qualidade o material utilizado. Mais uma vez criticou a atitude do prefeito em ter destruído parte da praça e da câmara que através de aprovação da Lei que dá o direito ao Executivo de doar qualquer terreno público ou prédio. Teceu criticas quanto a construção da casa para cachorros que está abandonada.

· Presidente Luis Gonzaga: classificou o discurso do vereador Fernando Mendes de ridículo, estapafúrdio, pois o mesmo deveria, antes de usar a tribuna, analisar as coisas e não mentir diante de todos. Alegou que o mesmo não tem competência para julgar qualquer vereador, pois atuam em beneficio do povo e só o povo deve julgar.

· Vereador Geudi Barbosa: defendeu a prefeitura alegando que a conclusão do calçamento não foi realizada devido as chuvas. Citou varias obras já concluídas na administração e da iniciação da barragem do Guandú. Terminou parabenizando o prefeito.

· Vereador Senaquerib: disse que o vereador Fernando Mendes foi infeliz no seu discurso, por não observar as ultimas chuvas que não deram condições da continuação da avenida Miguel Arraes, mas assim que estiver concluída o mesmo estará pronto pra elogiar o prefeito.

Ordem do Dia:

Constou da única discussão e votação da Indicação n°. 031/2007 de autoria do vereador Fernando Mendes, solicitando do Sr. Prefeito, a construção de uma praça no terreno ao lado do Ginásio-Poliesportivo nesta cidade. O vereador Fernando Mendes recebeu criticas do vereador Paulo Farias, pois o mesmo, disse que o primeiro, estava se utilizando de uma promessa do prefeito para fazer a indicação. A Indicação recebeu aprovação unânime.

28 de agosto de 2007 – Reunião Extraordinária

Convocada pelo Excelentíssimo Sr. Presidente vereador Luiz Gonzaga.

Pauta: apreciação, discussão e votação do Processo T. C. (Tribunal de Contas) nº. 0060048-9, referente à prestação de contas da Prefeitura Municipal de São Vicente Férrer,no exercício financeiro de 1999.

O relator, vereador Paulo Barros de Farias, acompanha a decisão do Egrégio Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, recomendou à Câmara Municipal de S.V.F a rejeição da Prestação de Contas da Prefeitura Municipal, correspondente ao exercício financeiro de 1999.

A palavra foi franqueada, mas não houve orador. Registrou-se a ausência de quatro vereadores: dos quais três da bancada de oposição e um da bancada governista.

Vida e Arte: Arte do Povo

Uma coisa do demônio?


Existem muitas versões sobre a origem da tatuagem, que ocasionalmente quando suscitadas geram uma grande controvérsia. O fato é que a tatuagem desperta interesse tanto nos jovens como nos adultos, seja de pequeninas cidades como a nossas ou grandes metrópoles do mundo inteiro.

Resolvi falar sobre tatuagem esse mês, após identificar alguns alunos meus da 5ª série A, da escola Dr. Manoel Borba. Com parte dos braços, mãos e tórax cheios de tatuagem. No instante que vi os alunos daquela forma fiquei um pouco irritado e pedi pra que todos se dirigissem ao banheiro, na intenção de que apagassem os desenhos.

Fiz aquilo, mas depois fiquei o restante do dia pensando se a minha atitude havia sido correta ou não. Já era tarde da noite quando resolvi procurar em alguns livros, revistas e na internet, algo que falasse sobre as ditas tatuagens.

Os historiadores divergem em suas opiniões, inclusive existem alguns os quais acreditam que ela tenha surgido em algum ponto do planeta e depois se espalhado por todo canto do mundo. O que é obvio. Mas, existem aqueles defensores da idéia de que ela teria aparecido em várias partes do globo de uma vez só. Essa foi mais original!

Mas, defendo a idéia de que a tatuagem esteja juntinha do homem desde os primórdios da civilização. Um bom exemplo para isso são os nossos ancestrais, os da pré-história que se orgulhavam das cicatrizes intencionais, que representavam para o grupo um título de coragem.

As tatuagens também foram utilizadas para registrar os acontecimentos da vida social, como tornar-se um guerreiro, casar-se, etc, ou então para pedir ajuda ao divino, como também no tratamento realizado pelos curandeiros.

A palavra tatuagem ou tattoo em inglês é um jeito de alteração do corpo mais conhecida e venerada do mundo. É um desenho feito na pele humana, é tecnicamente uma aplicação subcutânea conseguida por meio da incrementação de pigmentos e agulhas.

Durante a Idade Média a igreja católica retirou a tatuagem de cena alegando que era COISA DO DEMÔNIO. Porém, era tudo estratégia da própria igreja acabar com antigas culturas e costumes implementando uma lei extremamente ditatorial. Isso implica dizer que se uma vizinha que tivesse raiva de você, e descobrisse no seu corpo uma marca de nascença você poderia acabar na fogueira da Igreja Católica. (risos)

Mas, foi com os marinheiros do séc. XVIII que a tatuagem começou a tornar-se popular novamente principalmente os que navegavam os mares do sul.

Pra dinamizar ainda mais em 1891 foi desenvolvido por Samuel O’Reilly um aparelho elétrico para fazer tatuagens inspirado em um aparelho para marcar couro criado por Thomas Edison.

Os soldados que vivenciaram os horrores da guerra e a distância de seus familiares durante a Segunda Guerra Mundial utilizaram bastante a tatuagem, principalmente para gravar o nome da pessoa amada em seus corpos.

O regime nazista utilizava a tatuagem (uma numeração no antebraço) em seus prisioneiros judeus para identificá-los nos campos de concentração.

Durante a década de 60 surgiu na cidade de Santos (Brasil) a tatuagem elétrica por dinamarquês Knud Harld Likke Gregerssen, vulgo Lucky Tattoo. Este possuía uma loja perto da zona de prostituição, onde passam muitos bêbados, arruaceiros, drogados, etc. então, isso contribui para propagação de muitos preconceitos e discriminação em relação às tatuagens.

Atualmente as tatuagens vêm conquistando espaço novamente na sociedade, devido ao enorme número de informações concedidas pela televisão e a internet.

O fato é que o preconceito à tatuagem ainda existe, a discriminação aos que resolvem fazer uma tatuagem no corpo também. Deixa-se de ver o ser humano enquanto um ser de escolhas, de mentalidade diferente, e passa-se a observar as suas escolhas, seus gostos.

A forma como me comportei diante das manifestações artísticas dos alunos, reprimido-os, é apenas um reflexo da minha educação extremamente preconceituosa, etnocentrista, que mais perpetua os modelos já existentes há anos no nosso país, do que promove a libertação do indivíduo de fato.

Sem dúvida defendo a idéia de que se alguém quiser fazer uma tatuagem, faça sabendo o que está sendo feito. Pois, os povos antigos que tinham o costume de fazê-las possuíam motivos reais, havia significado em suas práticas.

Lembrando dos riscos à pele, dos cuidados que se deve ter após a realização de uma tatuagem, como também, da discriminação que o mesmo pode enfrentar se quiser romper com as concepções preconceituosas que permeiam a nossa sociedade, e por conta disso talvez não consiga um vínculo empregatício.

E quanto as crianças... Vou deixar vocês enrolarem-nas por mais tempo até elas tomarem conhecimento dos reais motivos da existência do demônio.

Escrito por: Daniel Ferreira.

Professor de História e Especialista em História do Nordeste.

E-mail: prof_daniel.al@hotmail.com