“Algumas pessoas acham que o artista tem que rir tem que encher o vídeo de dentes. Não tenho a menor pretensão de ser coerente. Além do mais, sou feio. E faço letras claras que às vezes, as pessoas demoram a sacar”. (Gonzaguinha).
O cuca chega a sua 4ª edição, passamos por muitas dificuldades até chegar a publicar, recebemos várias cobranças, criticas construtivas com relação à ansiedade dos leitores e tal, tudo isso é muito bom, assim sabemos e nos sentimos felizes em saber que o jornal ta caindo no gosto dos leitores “que também tem cucas livres”.
Escrever pra o jornal é inexplicável, só quem escreve sente. Nessa 4ª edição, escolhi uma música bastante conhecida, de um compositor também muito conhecido, a música se chama O que é, o que é? Seu compositor Gonzaguinha (Luiz Gonzaga do Nascimento Junior) filho do rei baião e de Odaléia Guedes dos Santos, cantora do Dancing Brasil. Desde o ventre já trazia em suas veias o sangue de um grande poeta popular e de um artista, e em sua alma o canto que iria encantar um povo, uma nação. Gonzaguinha era notável, primeiro por ser filho de Luiz Gonzaga e depois consagrado como compositor e intérprete (gravado por Simone, Nana Caymmi, Fagner, Maria Bethânia e muitos outros). Sua mãe morreu de tuberculose, ainda muito moça com apenas 22 anos, deixando Gonzaguinha órfão aos dois anos, e o pai, não podendo cuidar do menino porque viajava por todo Brasil entregou-o aos padrinhos Dina (Leopoldina de Castro Xavier) e Xavier (Henrique Xavier), o "Baiano do Violão" das calçadas de Copacabana, do pires na zona do mangue, morro de São Carlos, no Estácio, foram eles que o criaram.
As primeiras letras, Gonzaguinha aprendeu numa escola local, mas as verdadeiras lições de vida recebeu pelas ladeiras do morro. Quando garoto, para conseguir algum dinheiro, carregava sacolas na feira e avisava os bicheiros do local, quando da chegada da polícia.
Moleque Luizinho – seu apelido de infância, vivia nas ruas soltando pipas, jogando peladas, bolinha de gudes, pião era uma criança feliz e como tal, sofreu acidentes de infância como as três vezes em que furou o olho esquerdo, fazendo com que perdesse 80% da visão desse olho. No carnaval fugia com Pafúncio, um vendedor de caranguejos que morava nas redondezas e era membro da ala de compositores da Escola de Samba Unidos de São Carlos, a partir daí, o samba estaria definitivamente em sua vida. Gonzaguinha cresceu, entre a malandragem dos moleques de rua e o carinho da madrinha. Do pai, recebeu o nome de certidão, dinheiro para pagar os estudos e algumas visitas esporádicas. Imerso no dia-a-dia atribulado da população, Gonzaguinha ia aprendendo a dureza de uma vida marginal, a injustiça diária vivida por uma parcela da sociedade que não tinha acesso a nada. O aprendizado musical se fez em casa mesmo, ouvindo o padrinho tocar violão e tentando fazer o mesmo. Gonzaguinha ouvia Lupicínio Rodrigues, Jamelão e as músicas de seu pai. Gostava de bolero e era assíduo freqüentador de programas sertanejos. Ouvia também muita música portuguesa, pois D. Dina sua madrinha e mãe adotiva era filha de portugueses e manteve-se ligada às tradições familiares.
Aos catorze anos, Gonzaguinha escrevia sua primeira composição: "Lembranças da Primavera". Pouco mais tarde, compôs "Festa" e "From U.S of Piauí", que seu pai gravaria em 1968 e 1972, respectivamente.
Gonzaguinha seguiu uma linhagem musical totalmente diferente de seu pai. Estudou economia lia todos os jornais e guardava tudo num saco de estopa, ele dizia que esses jornais podiam ajudar nos estudos. Só depois de formado é que ele jogou tudo fora. Trancado no quarto, estudava economia e tocava violão. Quando saía, ia para a praia jogar futebol, sua outra paixão. A vivência da pobreza no Estácio, os problemas familiares e o espírito crítico que possuía, aliados aos estudos na Universidade e ao clima pesado da ditadura militar foram o ambiente onde se desenvolveu um dos mais criativos e inteligentes compositores da MPB contemporânea.
As canções de Gonzaguinha são verdadeiras obras primas, e dessas obras em especial gosto muito dessa “O que é, o que é?”. Ouvi, pela primeira vez à pouco tempo, a uns cinco anos, quando participava de um pequeno grupo de teatro. Lembro-me que Marcelo Faustino, meu amigo e coordenador do grupo, levava a música pra um exercício de relaxamento, e para que pudéssemos refleti-la. Gonzaguinha compôs essa música em meados dos anos
Viver e não ter a vergonha de ser feliz... Como é difícil, mas sonhado. A verdade é que vivemos de sonhos, sonhamos em crescer na vida, em ter sorte, sonhamos num amanhã novo, cheio de vida e sem diferenças sociais, mas muitas vezes nos perdemos em tudo isso e limitamos o existir em uma busca obsessiva por se dar bem como se o ter fosse garantia de felicidade plena. Nessa canção, Gonzaguinha faz uma explicação do sentido da vida.
“Viver e não ter a vergonha de ser feliz,Cantar, e cantar, e cantar,A beleza de ser um eterno aprendiz.Ah, meu Deus! Eu seiQue a vida devia ser bem melhor e será,Mas isso não impede que eu repita:É bonita, é bonita e é bonita! Como seria entusiasmante se pudéssemos sair cantando sem vergonha a beleza da vida, nos recuamos diante do meio em que vivemos, quantas diferenças, quantos pensamentos diversos. Quantas dificuldades encontramos primeiro em escolher o que queremos pra nossas vidas, temos medo, somos narcisistas, entre tantas outras coisas. Temos vergonha da verdade, e nos firmamos numa sociedade erguida em culpas, hipocrisia e mentiras onde o “socialmente apresentável” é o que importa. Hoje, presenciamos racismo, preconceito, violência e tantas outras mazelas. Tornamos-nos adeptos das coisas que o meio nos impõe e com medo de errar erramos em não ver que somos eternos aprendizes, e esquecemos que em meio às simplicidades é onde encontramos a verdade e a pureza da vida. “E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?Ela é a batida de um coração?Ela é uma doce ilusão?Mas e a vida? Ela é maravida ou é sofrimento?Ela é alegria ou lamento?O que é? O que é, meu irmão?Há quem diga que a vida da gente é um nada no mundo,É uma gota, é um tempoQue nem dá um segundo,Há quem fale que é um divino mistério profundo,É um sopro do criador numa atitude repleta de amor.Você diz que é luta e prazer,Ele diz que a vida é viver,Ela diz que melhor é morrerPois amada não é, e o verbo é sofrer. O importante no todo, é que a vida é um mistério. E tudo que é misterioso é trágico, cômico, excitante, perigoso. Como animais “racionais”, trazemos em nosso ser a vontade e o desejo de nos conhecer, de derrubar as barreiras que tanto nos fere, que tanto nos amedronta. Pra uns, como Gonzaguinha faz a pergunta: E a Vida? A vida é definida do ponto de vista de cada momento, do que a pessoa vive, pensa e passa. Ou seja, definimos “A Vida” no fio do que passamos. Se estamos bem a vida é boa, se estamos mal ela é uma desgraça. Partindo desse princípio de que cada um define sua vida a partir do que passa, esbarramos no conceito de que somos mesquinhos em limitar algo que é tão maior.Gonzaguinha morreu aos 46 anos num acidente de trânsito em 1991, mas antes de morrer deixou nesta letra a melhor definição da vida, onde cada um de nós pode viver a vida como quiser. Escolheu como melhor definição para a vida, a resposta das crianças: “Somos nós que fazemos a vidaComo der, ou puder, ou quiser,Sempre desejada por mais que esteja errada,Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,E a pergunta roda, e a cabeça agita.Fico com a pureza das respostas das crianças:É a vida! É bonita e é bonita!É a vida! É bonita e é bonita!” Engraçado, a poucos dias quando pensava em escrever para o Jornal, sobre essa música em um encontro etílico, entre muitas conversas, Kleber disse: - Josa, porque quando tu for escrever teu texto não pergunta a uma criança o que é a vida?- Eu falei: Poxa! nego que idéia da porra! Vou perguntar a Nega (Beatriz) o que é a vida pra ela.Assim eu fiz,sabe qual a resposta: - A vida é bom!!!!! (E riu).Nesse momento, entendi a pureza que Gonzaguinha expressava em sua letra. Ele percebeu com seu lado sensível que a resposta de uma criança era a verdadeira face da vida. Ela não tinha medo de falar a verdade, ainda não concebeu ao todo os padrões ditados, portanto está mais perto da essência. Escrito por: Josias AlbinoTécnico em Informática e Funcionário da rede privada de Educação.E-mail: josiasbad@hotmail.com
