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segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Liberducação

“Pátria que me Pariu”.

A primeira semana de setembro dos meus tempos de escola era uma farra nacionalista, confecções e pinturas da Bandeira Nacional, ensaios exaustivos da entoação do Hino, aulas de História, há as aulas de História! Figuravam na boca das professoras os “grandes feitos” dos “Heróis” nacionais, ou os vultos da pátria como eram conhecidos.

Nós, todos pequenos, devaneávamos na idealização imaginária de D. Pedro I sobre o cavalo, empunhando a espada e gritando para o nada: “Independência ou Morte”. Cena lendária, carregada de saudosismo que tentávamos reproduzir com nossos chapéus e espadas de jornal, nos recreios da semana da pátria.

O grande dia era o 7 de setembro, a culminação das atividades, banda marcial, a célebre baliza, os filhos dos mais abonados iam de destaques, caracterizados dos “Heróis” da Pátria que nos Pariu. Tinha Tiradentes, D. Pedro I e II, a princesa Isabel, geralmente ladeada de crianças negras vestidas de escravos, mais com os braços levantados mostrando as correntes partidas.

Era um espetáculo! O povo nas calçadas se acotovelando e as mães dos destaques sempre à apostos com toalhinhas para enxugar o suor e garrafas de água para refrescar a exaustão de seus pequenos pupilos, mas tudo se aliviava nas tricotagens à respeito do quanto se gastou em dinheiro na fantasia dos filhos.

Depois da macha ordenadazinha, marcadazinha, padronizadazinha, paravam os pelotões em “posição de sentido” para hastear a bandeira e cantar o hino, não importava o sentido da letra, o negocio era não errar e não fazer feio.

Para fechar a celebração, engolíamos goela abaixo os discursos dos políticos no palanque montado. Seu fulano de tal pega o microfone e era aquela verborragia:

- Tico-Tico-Teco-Teco... A constituição...

- Tico- Tico-Tico-Tico... A pobreza...

- Teco-Teco-Teco-Teco... O povo... O Brasil... A Independência depende de mim...

Voltando para casa, as crianças exaustas, já com o conga azul na mão e os adultos conversando:

- Tu visse seu fulano como falou bonito?

- Vi, mas me desviei uma horinha pra olhar esse diabo desse menino, o que foi que ele disse mesmo?

- sei não, só sei que falou foi bonito. Aquilo é que é um homem para se dar um voto.

Pronto! Esse era o nosso 7 de setembro, marcado pela futilidade, pela mentira, pelo oportunismo, pela ordenação e principalmente pelo silêncio, pois falar numa hora como aquela era desrespeito à nossa pátria mãe gentil. Ninguém se dava conta de que essa “mãe” já tinha abortado tantos filhos, vendido tantos outros, desconhecido a maternidade de muitos, dado muito a muito poucos e matado tantos de fome, de abandono, de desatenção, de privação.

Ainda hoje há quem não se pergunta: Ordem em que sentido? E Progresso para quantos? Há quem se sinta extremamente nacionalista e canta de mão empalmada sobre o peito e de olhar fixo no horizonte: “Verás que um filho teu não foge à luta, bem teme quem te adora a própria morte. Terra adorada...”. E a todo momento esses são quem geralmente traem a pátria, quando não faz caso na figura do menos favorecido que é quem sempre paga mais caro, trai a pátria quando se omite a lutar. A falar, a denunciar erros. Que cultura é essa? Precisamos perpetuar para sempre essa hipocrisia? “O jeitinho brasileiro”? O “tudo acaba em pizza”? O apadrinhamento? O pistolão? O nepotismo?... Etc.etc.etc...

A escola, a educação têm um papel fundamental na nova pátria que precisamos formar, a pátria é cada um de nós mais humanizados, mais coletivos, mais conscientes. A escola precisa ensinar ao aluno que independência se conquista desde cedo, que uma nação de verdade se começa com justiça social, que não precisamos de “HÉROIS” que de “CIMA PARA BAIXO” tomem as decisões e a gente fique só para aplaudir, servir de volume, ou de “bucha de canhão” para empreender e realizar as grandes empreitadas que eles não conseguem fazer sozinhos.

A escola precisa contar para o aluno que o “Grande Acontecimento de 7de setembro de 1822” foi um grande acordão. A independência do Brasil era “favas contadas” e D. Pedro já havia sido alertado pelo pai D. João VI, rei de Portugal, quando disse-lhe: “Meu filho, faça a independência antes que um aventureiro o faça”. Era melhor tudo ficar entre família, e Portugal para reconhecer essa tal independência de sua ex-colônia, exigiu pagamento de dois milhões de libras esterlinas, quantia que o Brasil não tinha, mas o novo imperador tomou emprestado com a Inglaterra, que depois recebeu com tantos juros e correções monetárias que quase expõem as tripas do povo brasileiro já tão exausto de exploração.

E hoje?Que independência temos para comemorar? Vamos celebrar o quê? A exclusão social? Os mensalãos da vida? Os grandes exemplos de ética na política? Os Renans Calheiros do Senado? Tudo isso sem falar na escorchante dívida externa que só com os juros que pagamos, dava para dar uma guinada na saúde e na educação. Sem falar também na permanência do latifúndio intocável pelo governo do ex-operário tão afeito aos movimentos sociais e aos sem terra,sem teto,sem nada.

A escola tem a obrigação de fazer o aluno enxergar o mundo em que vive de maneira crítica, e agir sobre essa realidade na perspectiva de mudá-la. A semana da pátria deve ser um dos períodos de reflexão, de debate, de confronto de idéias, de analises, de luta, de ir para a rua e ensinar o aluno a lutar por direitos, de mostrar para a sociedade que estudante não é imbecil, que escola é um grande agente social.

O 7 de setembro é data para mostrarmos que somos brasileiros passíveis de construir uma consciência de nossas falhas e limitações, porém não nos conformamos e estamos aptos para mudar, para construir de fato uma sociedade mais inclusiva. O 7 de setembro é dia de construir a independência que ainda não temos, e não esconder nossas vergonhas sociais com plumas e paetês.

Escrito por: Kleber Henrique

E-mail:prof_kleber_henrique@hotmail.com"

Professor de História


Balanço Legislativo

Balanço Legislativo Municipal

Mês: agosto/2007

Fonte: Livro de Atas da Câmara Municipal de São Vicente Férrer (Casa Benigno de Moura)

Parlamentares: Antonio Manoel Marx Filho, Fernando Mendes Ribeiro, Maria Silvana Cavalcanti, Paulo Barros de Farias, Senaquerib Coutinho (Vice Presidente), Vicente Férrer de Albuquerque, Luiz Gonzaga da Silva (Presidente), Geudi Barbosa da Silva, José Elias da Silva.

02 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

O presidente, diante dos presentes autorizou a leitura do expediente, o qual constou o oficio nº. 180/2007 encaminhado à casa juntamente com o projeto de Lei nº. 03/2007 dispondo sobre a revisão do Plano Plurianual 2006/2009. O oficio 181/2007 encaminhado juntamente com o projeto de Lei nº. 04/2007 dispondo sobre as diretrizes orçamentárias para 2008. ambos de autoria do chefe do poder executivo municipal.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Fernando Mendes: falou sobre a nova eleição do Conselho Tutelar, que acontecerá no próximo domingo, em suas colocações disse ter sido criado no meio do conselho uma politicagem absurda o que para o nosso município é uma vergonha, por ser uma eleição independente. Citou a falta de carros de som convocando a população – ainda sobre isso citou que a intenção era prejudicar o candidato César, e solicitou que a população comparecesse. Ainda demonstrou indignação com o projeto “CHAPÉU DE PALHA” onde muitos se inscreveram e não receberam nada. Criticou as atitudes do Poder Executivo por destruir parte da praça, porque existe uma lei aprovada pelos vereadores autorizando o prefeito a doar qualquer órgão público, e isso ele já está fazendo, só que doando a quem já tem, onde deveria beneficiar quem não tem.

· Vereador Geudi Barbosa: disse está feliz com a realização do projeto sobre a floricultura na Chã do Esquecido, lamentou o mesmo não ter sido realizado em Siriji, devido o clima não favorável. Falou da extensão da água que está sendo feita na escola de lajinha, a criação de poços artesianos em Siriji e a reforma do prédio para aulas de informática. Convidou a população a participar das eleições do Conselho Tutelar e afirmou que o carro de som estava divulgando os candidatos.

· Vereadora Maria Silvana: começou sua fala dizendo que a respeito do Conselho a realidade não condiz com o que foi dito pelo vereador Geudir Barbosa, pois já se deu entrada na justiça para que os conselheiros recebam salário mínimo. Disse estar indignada com a ação do prefeito em começar a destruir a praça e que foi contra a aprovação da lei nº. 711/02 de 23/dez/ 2002 que dá direito ao prefeito de fazer doações de prédios públicos. Solicitou usarem espaço na Rádio Comunitária Capibaribe Mirim FM e que o diretor da mesma, esclarecesse porque a cobrança de dinheiro já que a mesma é de utilidade pública.

· Vereador Paulo Farias: disse perceber o clima de preocupação, pois já que estavam incomodados com a atuação do prefeito e que o mesmo não faz o que quer, e sim, cumprir a lei. Quanto a parte destruída da praça, estão se precipitando antecipado, deveriam esperar a conclusão do que vai ser feito ainda para depois comentarem. Concluiu dizendo que a Rádia estava sim divulgando as eleições do conselho.

· Vereador Senaquerib: parabenizou Paulo Farias pelo mesmo ter dado a resposta adequada aos vereadores da oposição. Quanto a eleição do conselho, disse ser um ato democrático. E com o Chapéu de Palha o trabalho era honesto.

· Vereador Vicente Férrer: pediu que a casa cumprisse com a lei estadual em seu art. 123 § 3º e colocasse no quadro o relatório fiscal e o boletim da tesouraria. Em seguida falou do Jornal Cuca Livre, elaborado por Daniel, Josias e Kleber e que é de grande valor cultural. E quanto às eleições do conselho era necessária escolher bem os candidatos.

· Vereador Antonio Manoel: disse que no segundo semestre nos trabalhos da casa esperava mais participação das comissões nas reuniões. Gostaria que nas eleições do Conselho fossem eleitos um representante de cada localidade e que a casa legislativa estava à disposição do conselho. Terminou parabenizando o prefeito pela restauração de estradas.

Ordem do dia: Única discussão e votação da Indicação nº. 26/07 de autoria do vereador Vicente Férrer sobre a regulamentação dos agentes de saúdes. Essa indicação é uma seqüência do que acontece na Câmara Federal. A Indicação foi aprovada por unanimidade e enviada para que o prefeito elabore o referido projeto de regulamento dos agentes de saúde para que a câmara possa aprovar e garantir o direito desses trabalhadores.

09 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

Após a leitura do expediente ao projeto de lei n°. 03/2007 de autoria do chefe do poder executivo municipal, dispondo sobre a revisão do Plano Plurianual 2006/2009 para o exercício de 2008. As comissões aprovaram o projeto. Os trabalhos prosseguiram com a Indicação nº. 031/2007 de autoria do Vereador Fernando Mendes, encaminhado apelo ao Sr. prefeito de que seja construída uma praça no terreno próximo ao Ginásio-Poliesportivo no Loteamento Pe. Nazareno.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Geudi Barbosa: informou sobre convênio firmado entre a prefeitura municipal e o IBAMA, destinado à implantação de uma área de lazer, pista de Cooper e núcleo de educação ambiental, onde terá biblioteca, produção de mudas e área para a prática de caminhadas. Isso no distrito de Siriji.

· Vereador Senaquerib: disse ter conhecimento dessa luta antiga do Sr. prefeito para que tal pleito se concretizasse e que foram muitas as reivindicações do povo de Siriji.

· Vereadora Maria Silvana: comentou sua alegria com os eleitos para o conselho tutelar e que tudo só a havia corrido bem nas eleições em conseqüência das cobranças feitas na seção passada. Dirigindo-se aos conselhos eleitos presentes, disse que a bancada de oposição estava à disposição do conselho.

· Vereador Vicente Férrer: solicitou ao Sr, presidente que autoriza-se copias do Relatório Resumido da Execução Orçamentária 3º bimestre/2007 da prefeitura municipal, as quais foram autorizadas pelo presidente. O vereador se congratulou com os conselheiros eleitos. Mostrou que há necessidade de se destinar no orçamento para 2008 recursos para o conselho tutelar e que, caso o prefeito não se pronuncie, esta câmara com a contribuição do assessor parlamentar elabore uma Emenda ao orçamento para dá condições de trabalho aos conselheiros.

· Vereador Antonio Manoel: apelou aos companheiros de bancada para reivindicar junto ao prefeito, providenciais sobre a falta de iluminação no trecho próximo à casa do vereador Senaquerib Coutinho em Siriji, pois esse problema causa insegurança à população que sai à noite.

· Vereador Senaquerib: disse ser necessário a união dos quatros vereadores de Siriji para cobrar essa solução e que o orçamento geral ficava em torno de 20 mil reais. Referiu-se ao discurso do vereador Vicente Férrer sobre o conselho tutelar e concorda que se deve cobrar dotações. Disse serem os vereadores a favor no aumento do salário dos conselheiros.

· Vereador Fernando Mendes: criticou o canal que foi dado inicio na frente do CERU há mais de um ano e não foi concluído. Comentou a indicação nº. 031/2007 de sua autoria. Fez apelo à Secretaria de Obras para que tomem providencias sobre a escola de Cana-Brava, a qual se encontra em precárias condições e citou a necessidade de iluminação nas imediações da rodoviária. Fez criticas à desorganização das eleições do conselho tutelar e a falta de divulgação. Ressaltou a necessidade de aumento dos salários dos conselheiros.

Ordem do Dia:

Indicação nº. 26/07 de autoria do vereador Vicente Férrer, o qual solicita do Sr. Prefeito, que seja feita alteração no art. 51 da Lei Municipal n° 724/2004, ampliando a duração da licença à gestante. Após a discussão foi aprovada por unanimidade.

16 de agosto de 2007 – Reunião Ordinária

Iniciou-se a leitura do expediente: Ofício nº. 193/07 e projeto de Lei nº. 05/2007, o qual solicita autorização para o Poder Executivo abrir crédito especial e da outras providencias. Indicação nº. 32/2007 de autoria do vereador Geudi Barbosa formulando o apelo ao Sr. Prefeito no sentido de que sejam construído sanitários na Zona Rural e Urbana que não os possua.

Grande expediente: (em ordem de fala)

· Vereador Fernando Mendes: criticou o calçamento da avenida Miguel Arraes (Siriji) por ser de péssima qualidade o material utilizado. Mais uma vez criticou a atitude do prefeito em ter destruído parte da praça e da câmara que através de aprovação da Lei que dá o direito ao Executivo de doar qualquer terreno público ou prédio. Teceu criticas quanto a construção da casa para cachorros que está abandonada.

· Presidente Luis Gonzaga: classificou o discurso do vereador Fernando Mendes de ridículo, estapafúrdio, pois o mesmo deveria, antes de usar a tribuna, analisar as coisas e não mentir diante de todos. Alegou que o mesmo não tem competência para julgar qualquer vereador, pois atuam em beneficio do povo e só o povo deve julgar.

· Vereador Geudi Barbosa: defendeu a prefeitura alegando que a conclusão do calçamento não foi realizada devido as chuvas. Citou varias obras já concluídas na administração e da iniciação da barragem do Guandú. Terminou parabenizando o prefeito.

· Vereador Senaquerib: disse que o vereador Fernando Mendes foi infeliz no seu discurso, por não observar as ultimas chuvas que não deram condições da continuação da avenida Miguel Arraes, mas assim que estiver concluída o mesmo estará pronto pra elogiar o prefeito.

Ordem do Dia:

Constou da única discussão e votação da Indicação n°. 031/2007 de autoria do vereador Fernando Mendes, solicitando do Sr. Prefeito, a construção de uma praça no terreno ao lado do Ginásio-Poliesportivo nesta cidade. O vereador Fernando Mendes recebeu criticas do vereador Paulo Farias, pois o mesmo, disse que o primeiro, estava se utilizando de uma promessa do prefeito para fazer a indicação. A Indicação recebeu aprovação unânime.

28 de agosto de 2007 – Reunião Extraordinária

Convocada pelo Excelentíssimo Sr. Presidente vereador Luiz Gonzaga.

Pauta: apreciação, discussão e votação do Processo T. C. (Tribunal de Contas) nº. 0060048-9, referente à prestação de contas da Prefeitura Municipal de São Vicente Férrer,no exercício financeiro de 1999.

O relator, vereador Paulo Barros de Farias, acompanha a decisão do Egrégio Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, recomendou à Câmara Municipal de S.V.F a rejeição da Prestação de Contas da Prefeitura Municipal, correspondente ao exercício financeiro de 1999.

A palavra foi franqueada, mas não houve orador. Registrou-se a ausência de quatro vereadores: dos quais três da bancada de oposição e um da bancada governista.

Vida e Arte: Arte do Povo

Uma coisa do demônio?


Existem muitas versões sobre a origem da tatuagem, que ocasionalmente quando suscitadas geram uma grande controvérsia. O fato é que a tatuagem desperta interesse tanto nos jovens como nos adultos, seja de pequeninas cidades como a nossas ou grandes metrópoles do mundo inteiro.

Resolvi falar sobre tatuagem esse mês, após identificar alguns alunos meus da 5ª série A, da escola Dr. Manoel Borba. Com parte dos braços, mãos e tórax cheios de tatuagem. No instante que vi os alunos daquela forma fiquei um pouco irritado e pedi pra que todos se dirigissem ao banheiro, na intenção de que apagassem os desenhos.

Fiz aquilo, mas depois fiquei o restante do dia pensando se a minha atitude havia sido correta ou não. Já era tarde da noite quando resolvi procurar em alguns livros, revistas e na internet, algo que falasse sobre as ditas tatuagens.

Os historiadores divergem em suas opiniões, inclusive existem alguns os quais acreditam que ela tenha surgido em algum ponto do planeta e depois se espalhado por todo canto do mundo. O que é obvio. Mas, existem aqueles defensores da idéia de que ela teria aparecido em várias partes do globo de uma vez só. Essa foi mais original!

Mas, defendo a idéia de que a tatuagem esteja juntinha do homem desde os primórdios da civilização. Um bom exemplo para isso são os nossos ancestrais, os da pré-história que se orgulhavam das cicatrizes intencionais, que representavam para o grupo um título de coragem.

As tatuagens também foram utilizadas para registrar os acontecimentos da vida social, como tornar-se um guerreiro, casar-se, etc, ou então para pedir ajuda ao divino, como também no tratamento realizado pelos curandeiros.

A palavra tatuagem ou tattoo em inglês é um jeito de alteração do corpo mais conhecida e venerada do mundo. É um desenho feito na pele humana, é tecnicamente uma aplicação subcutânea conseguida por meio da incrementação de pigmentos e agulhas.

Durante a Idade Média a igreja católica retirou a tatuagem de cena alegando que era COISA DO DEMÔNIO. Porém, era tudo estratégia da própria igreja acabar com antigas culturas e costumes implementando uma lei extremamente ditatorial. Isso implica dizer que se uma vizinha que tivesse raiva de você, e descobrisse no seu corpo uma marca de nascença você poderia acabar na fogueira da Igreja Católica. (risos)

Mas, foi com os marinheiros do séc. XVIII que a tatuagem começou a tornar-se popular novamente principalmente os que navegavam os mares do sul.

Pra dinamizar ainda mais em 1891 foi desenvolvido por Samuel O’Reilly um aparelho elétrico para fazer tatuagens inspirado em um aparelho para marcar couro criado por Thomas Edison.

Os soldados que vivenciaram os horrores da guerra e a distância de seus familiares durante a Segunda Guerra Mundial utilizaram bastante a tatuagem, principalmente para gravar o nome da pessoa amada em seus corpos.

O regime nazista utilizava a tatuagem (uma numeração no antebraço) em seus prisioneiros judeus para identificá-los nos campos de concentração.

Durante a década de 60 surgiu na cidade de Santos (Brasil) a tatuagem elétrica por dinamarquês Knud Harld Likke Gregerssen, vulgo Lucky Tattoo. Este possuía uma loja perto da zona de prostituição, onde passam muitos bêbados, arruaceiros, drogados, etc. então, isso contribui para propagação de muitos preconceitos e discriminação em relação às tatuagens.

Atualmente as tatuagens vêm conquistando espaço novamente na sociedade, devido ao enorme número de informações concedidas pela televisão e a internet.

O fato é que o preconceito à tatuagem ainda existe, a discriminação aos que resolvem fazer uma tatuagem no corpo também. Deixa-se de ver o ser humano enquanto um ser de escolhas, de mentalidade diferente, e passa-se a observar as suas escolhas, seus gostos.

A forma como me comportei diante das manifestações artísticas dos alunos, reprimido-os, é apenas um reflexo da minha educação extremamente preconceituosa, etnocentrista, que mais perpetua os modelos já existentes há anos no nosso país, do que promove a libertação do indivíduo de fato.

Sem dúvida defendo a idéia de que se alguém quiser fazer uma tatuagem, faça sabendo o que está sendo feito. Pois, os povos antigos que tinham o costume de fazê-las possuíam motivos reais, havia significado em suas práticas.

Lembrando dos riscos à pele, dos cuidados que se deve ter após a realização de uma tatuagem, como também, da discriminação que o mesmo pode enfrentar se quiser romper com as concepções preconceituosas que permeiam a nossa sociedade, e por conta disso talvez não consiga um vínculo empregatício.

E quanto as crianças... Vou deixar vocês enrolarem-nas por mais tempo até elas tomarem conhecimento dos reais motivos da existência do demônio.

Escrito por: Daniel Ferreira.

Professor de História e Especialista em História do Nordeste.

E-mail: prof_daniel.al@hotmail.com

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Eu No Tempo!

Nós somos também construtores de flores

“Aos estudantes”

Era 13 de agosto de 2007, a poucos dias da 3ª edição do “Cuca Livre”, um dia após, um maravilhoso encontro etílico comemorando mais uma translação que a terra deu em torno do sol (dia de aniversário) do nosso amado camarada Kleber Henrique. Sentia-me incomodado pelo fato de ainda não ter certeza do que escrever, foi aí que pensei, pensei, e lembrei que agosto é o mês que se comemora o dia dos estudantes. Daí, viajei no tempo, lembrando daqueles famosos movimentos estudantis feitos durante a ditadura militar, lembrei das belíssimas músicas de resistência que até hoje nos trazem inúmeras reflexões. Pensava com meus botões quanta coragem e preocupação por uma vida melhor, uma sociedade justa e além de tudo o direito de viver em liberdade e exercer a cidadania. Aqueles bravos guerreiros (estudantes) enfrentavam repressão e muita censura, onde muitos morreram por seus ideais.

Participar do movimento estudantil era, acima de tudo, correr riscos. Risco de perder a vida, perder a esperança, e, especialmente perder a liberdade.


Hoje, com as mudanças no cenário político-econômico nacional, muitos dos ideais originais do movimento estudantil se perderam e a maioria dos estudantes parece "aprisionada" dentro de um sistema que não prioriza o coletivo, porém, jovens considerados por muitos como obstinados e idealistas se sobrepõem às dificuldades e continuam lutando, mostrando que a história do movimento estudantil está ligada, sobretudo, à resistência à criação de uma sociedade individualista.


A música que escolhi para identificar a classe estudantil foi “Pra não dizer que não falei das flores” (canção de Geraldo Vandré), essa canção é símbolo de uma época de maior efervescência do movimento estudantil e de lutas populares. Acredito que todo brasileiro já ouviu trechos dessa canção:

Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas, campos, construções
Caminhando e cantando e seguindo a canção

Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

Essa canção, é um hino considerado pelos estudantes e pelas lutas populares no Brasil, em seus versos mostra que as lutas estudantis não visavam apenas sua classe, mas as questões sociais da época, como, a questão agrária do país, a repressão dos militares, que na maioria das vezes se interpõe contra o povo e em favor dos interesses da elite, essas duas estrofes deixam clara a preocupação da classe estudantil, com problemas sociais da época e a esperança de uma sociedade menos individualista e repressiva:

Pelos campos há fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
ainda fazem da flor seu mais forte refrão
e acreditam nas flores vencendo o canhão

Há soldados armados, amados ou não
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam a antiga lição
de morrer pela pátria e viver sem razões”.


Os movimentos estudantis, ficaram marcados de lutas por ideais em várias épocas principalmente nos períodos em que as questões relacionadas aos destinos do país e às decisões que viessem alterar a vida do povo como um todo era seu alvo maior. Olhar para a história recente do país sem perceber a atuação estudantil é sem dúvida, um grande equivoco.


Quantos jovens estudantes perderam a vida em busca de uma sociedade mais justa e humana e até hoje suas memórias foram sepultadas pela poeira do tempo, mas sem deixar que seus exemplos morressem.


Atualmente, a classe estudantil se subdivide em diversas alas, quando se considera seu papel nas lutas sociais. Nas cidades grandes existem duas alas: aqueles que se integram e se engajam nas lutas, nas manifestações, nas ações e nos protestos e aqueles que simplesmente vão à escola, mas não se mobilizam por não se sentirem simpáticos para com essas atuações, limitam o ser estudante apenas a quem freqüenta uma sala de aulas.


Nas cidades do interior, dificilmente se encontra movimento estudantil organizado, muitas vezes seus grêmios estudantis são meros órgãos promovedores de eventos ligados à diversão, mas distantes das questões de interesse coletivo.


Nesse texto, pretendi dedicá-lo em especial aos estudantes e deixar um recado: estudante não é simplesmente espectador da história, mas um forte agente de mudanças. Todo dia é dia de estudante, não façamos mais do 11 de agosto só um momento de festa, mas dia de consciência e mobilização. Festas, os políticos nos dão quase que constantemente, e são necessárias também, desde que não nos faça crer num mundo de conto de fadas ou que as mudanças só acontecem de “cima para baixo”. Todas as mudanças do mundo na melhoria da vida do povo só foram reais porque a “classe de baixo” lutou muito.


A realidade de nossas escolas, na grande maioria beira o caos: falta de recursos, professores mal pagos e mal capacitados, alunos desestimulados e o resultado todos já conhecem.


A luta estudantil é um caminho de mudanças, e um passo importante, digamos que seja o primeiro degrau.


Gostaria imensamente de no próximo 11 de agosto escrever outro texto, só que de felicitações e força para os grêmios estudantis que possam surgir em nossa cidade, dos quais tenho certeza que todos que acreditam na força do jovem estão prontos para dar os braços e caminhar juntos, pois juntos somos muito mais fortes.


Deixo o forte chamado das últimas estrofes da música que escolhi.


Nas escolas, nas ruas, campos construções
Somos todos soldados armados ou não
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Somos todos iguais, braços dados ou não”.


Os amores na mente, as flores no chão
A certeza na frente, a história na mão
Caminhando e cantando e seguindo a canção
Aprendendo e ensinando uma nova lição”.


Escrito por: Josias Albino
Técnico em informática e um dos diretores do Cuca Livre.
E-mail: josiasbad@hotmail.com


P.S.: Quero agradecer ao camarada e ex-professor de História, Kleber Henrique, por ajudar a mim e demais alunos em nossa formação educacional como também no despertar de nosso senso critico e a Daniel Ferreira, também professor, por está fazendo um belo papel de educador comprometido com as mudanças sociais. Dedico também a todos os professores de minha infância e adolescência que contribuíram positivamente com meu aprendizado. Desejo à todos muito sucesso e que continuem fazendo sempre o belo trabalho de educador.


Um Desenho

Os Filhos Deste Solo

Tentar escrever sobre a vida de alguém é algo que bifurca em dois caminhos: a dificuldade de fazê-lo e ao mesmo tempo o prazer que isso traz quando tivemos a oportunidade de conhecer essas pessoas sobre as quais escrevemos e que nos deixaram ricas lições de vivência.

Ainda lembro que quando eu era menino, seu Caetano como todos o chamava, trazia em si as características de um mito vivo, aquele senhor baixinho, quase centenário, que conservava o hábito de usar paletó, com uma voz forte e cheia de propriedade no que falava. Guardava na memória muito conhecimento e a história de sua terra. Era a alegria da meninada da Rua Coronel Henrique que enchia a calçada alta do sobradinho que ele morava e já era certo todas as noites vê-lo descer as escadas de casa para ir à igreja. Com os bolsos do paletó cheio de nego-bom desafiava a criançada com perguntas de conhecimentos gerais para ganharem os doces. No final era certo todos ganharem, mais ele deixava a lição: Vão ler meninos! Vão ler!


Manoel Caetano – Guardião da Memória Viva de São Vicente Férrer


Manoel Caetano de Oliveira, nasceu em São Vicente Férrer, no Sítio Estreito em 12 de dezembro de 1891, sabia relatar a formação de sua família, que era descendente de portugueses com indígenas. Seu pai José Caetano de Oliveira era neto de uma índia. Numa batalha entre índios defendendo a terra e brancos pela tomada da mesma, no desenrolar do conflito, uma indiazinha perdida e com medo se escondeu no mato e salvou-se de ser morta, posteriormente essa índia casou-se com um português que era seu avô e tiveram 10 filhos, entre eles seu pai José Caetano de Oliveira que casou-se com Elvira Maria da Conceição, sua mãe.

A família muito grande se dispersou para várias áreas do país e nós vicentinos, tivemos a sorte de seu Caetano ficar por aqui, herdou dos portugueses ousadia e dos índios coragem e bravura.

Sua família era de agricultores plantadores de café e tinha uma pequena propriedade no Sítio Estreito, não valorizavam a cultura letrada, apenas o cuidado com a terra. Manoel Caetano tinha muita vontade de aprender a ler, mas seu pai não achava necessário. Cuidar do café bastava. Quando bem jovem soube através de amigos que havia um professor em Macapá (Macaparana) e tapeou o pai dizendo que ia trabalhar num comércio na rua, começou como balconista no armazém do Coronel Nestor Gomes de Moura, quando terminava os expedientes, muitas vezes foi a pé para Macapá ter aulas. Aprendeu a ler e escrever bem e daí a leitura foi sua grande parceira, lia tudo, revistas, livros, jornais e ouvia rádio para manter-se informado.

Com sua inteligência e perspicácia participava das conversas nas grande rodas de políticos, coronéis da republica velha, comerciantes, proprietários de café e senhores de engenho.

Quando jovem gostava imensamente de carnaval e se esbaldava nas folias de Momo, contava que em certa feita, um jovem estudante de direito, o Dr. Cláudio Cunha veio passar o carnaval em São Vicente e convidado pela rapaziada para cair na farra, se recusou, era um intelectual e esteticamente cair nessas “coisas do populaxo” não ficava bem ao jovem doutor. Depois de muita insistência, decidiu ir a cavalo só ver as festas que saía da antiga Fazenda Recreio, a turma preparou um plano que fez com que o cavalo desse uma queda no Doutor no meio do bloco. Depois que caiu literalmente, resolveu cair na dança.

Ainda bem jovem, apaixonou-se por Adélia Pessoa de Almeida, filha única de Rita Maria da Conceição e Gonçalo Francisco de Almeida, grande mestre pedreiro que construiu tanto parte da igreja matriz, quanto a ponte da Rua Coronel Henrique que em forma de arco, na época, ninguém acreditava que durasse, mas está de pé até hoje.

Adélia nasceu na Paraíba e era moça fina que estudou e tornou-se professora. Começaram a namorar (ela e Manoel Caetano) sem a aprovação dos pais da mesma que tinham preconceito porque a família de Caetano era de Analfabetos. Diante da proibição, deram o namoro por acabado, mas Manoel Caetano articulou um plano: começou a namorar uma moça analfabeta e lhe enviava cartas constantemente, a mesma retrucou como iria ler sem saber e ele lhe aconselhou que procurasse Adélia para ler para ela. E assim começou o indo e vindo de cartas, até que dona Rita desconfiou e terminou junto com seu Gonçalo permitindo o casamento, pois Adélia já tinha 19 anos e poderia “encalhar”.

Um ano depois de casados, 1915, foi nomeado sacristão da Matriz, cuidava da igreja como de sua casa, presenciou e trabalhou pela construção da torre em 1930. foi sacristão por 70 anos, era querido pelo povo católico, pois na falta de padres, ele batizava e evangelizava.

Tiveram cinco filhos: Maria José, Maria Margarida, José Bartolomeu, Maria Mercês e Maria Cleonice. Seu maior esforço foi educar os filhos. Seu filho homem estudou no Ginásio Pernambucano (Recife), Maria José e Cleonice se formaram professoras no internato de moças em Timbaúba (Escola Santa Maria). Ele exigia muito desempenho dos filhos nos estudos, pontuava: “a média do colégio é 6, mais a minha média é 7 e se não passar no fim do ano volta para casa pra tirar café” .

Seu Caetano era apaixonado por política, fã incondicional de Getúlio Vargas, era filiado ao PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Fez questão de conhecer Getúlio quando veio a Recife, e de fato foi e conversou com o Presidente. Firme em sua posição política, décadas depois como membro do PSD (Partido Social Democrático), também um partido getulista, travou lutas tremendas em campo local, pois era adversário do político Sr. Sandoval Maranhão do Egito (Prefeito muitas vezes de São Vicente que era membro da UDN(União Democrática Nacional)). Nunca se beneficiou da política para ganhar favores pessoais. Lutou ativamente pela Emancipação do Município em 1953, conversou com Paulo Guerra que era Deputado Estadual e que quase o tirava a esperança, quando disse que era preciso 1000 (mil) assinaturas para emancipar a cidade, e o pediu que arrumasse ao menos 500 (quinhentas). Voltando a São Vicente, andou de casa em casa e até pelas zonas rurais e conseguiu as Mil assinaturas e assim a vila Manoel Borba voltou a ser São Vicente Férrer independente politicamente de Macaparana.

Trabalhou na extinta Cooperativa dos Agricultores de São Vicente já bem idoso. Aos quase 71 anos de um casamento feliz em 09 de janeiro de 1986, perdeu sua companheira Adélia.

Dono de uma inteligência e memória excepcional teve vários ofícios e era fonte viva da história da cidade, discutia qualquer tema. Era super cogitado por estudantes e universitários que vinham entrevistá-lo. Sem titubear era uma correnteza branda de informações. Portava um amor fora do comum pela cidade. O passar de seus últimos anos foi cumprir com as exigências do cansaço do corpo provocados pela ação das lutas, do trabalho e do tempo. Ficou sem andar, mas com uma mente lúcida até seu quase centenário, faltava apenas 26 dias. Uma de suas maiores alegrias com relação a cidade, foi receber a noticia de que a comarca havia voltado a funcionar em São Vicente na gestão do prefeito Honorato Leitão, que fez questão de ir dar essa noticia pessoalmente.

Em 12 de novembro de 1991, deitado em sua cama rodeado pelo carinho e dedicação da família, orações e a meninada da rua, com sua missão cumprida e seu exemplo nos deixou o nosso bom velhinho.

A equipe do Jornal faz um apelo ao poder público que providencie o recolocamento da placa na praça Manoel Caetano de Oliveira locada no Pátio da Capela de Nossa Senhora da Conceição no Bairro da Cohab. A memória desse cidadão vicentino precisa ser conhecida e perpetuada.

Escrito por: Kleber Henrique

Professor de Historia

E-mail: prof_kleber_henrique@hotmail.com

P.S.: Agradeço imensamente a minhas vizinhas e amigas Guida, Cléo e Merça (Filhas de seu Caetano de Oliveira) que me receberam muito bem. Cedendo as informações e acima de tudo pelos momentos agradáveis de conversa.



Obs.: Foto – Casamento de Manoel Caetano de Oliveira e Adélia Pessoa em 1914.


Umas Palavras


Gilvan Guedes (Empresário e Agricultor)

Data: 12/08/07

Local: Sua Residência (Fazenda Mirim – S.V.F).

Cuca Livre: Como o senhor se sente em ser vicentino? Ou melhor, o senhor nasceu aqui?

Gilvan Guedes: Eu não nasci aqui não, nasci em Recife. Meu pais como outras pessoas que tinham posses iam parir em Recife. Mas, eu só nasci no Recife e vim logo praqui. Vivi a infância toda no engenho. Eu me sinto bem, é a região que eu gosto,clima muito bom, chove bem. Gosto de estar aqui, mas o que me faz sentir muito é ver uma região tão boa não se desenvolver tendo tudo pra isso. Só não se desenvolve pelo desinteresse de muitos com essa terra.

Cuca Livre: De suas lembranças, o que ficou mais vivo do exemplo de seu pai (o sr. Pedro Pereira Guedes) e dos tempos do Engenho Gracioso da Serra?

Gilvan Guedes: Era aquele movimento que tinha, os matutos carregando cana, fazendo rapadura, os partidos de cana-de-açúcar, o cheiro, o cheiro é muito vivo, o mel. Eu até hoje quando passo na praça onde era o engenho me lembro do cheiro mel.

Do meu pai, me lembro muito de sua facilidade de fazer amizades, espirituoso, muito alegre, fazia amizade com muita facilidade. O povo gostava muito dele.

Cuca Livre: Como filho de um proprietário industrial da cana, como o senhor encara a importância dos engenho naquela época para São Vicente Férrer?

Gilvan Guedes: O engenho movimentava muita coisa porque era como se fosse uma pequena industria hoje. O engenho era como se fosse uma pequena usina. Tinha muitos empregados, muita mão-de-obra empregada e isso já é muito importante porque tira muita gente da miséria. Para a época era muita inovação, pra você ter idéia, até pra chegar energia aqui papai deu muita idéia.

Cuca Livre: Seu pai, o senhor Pedro Pereira Guedes, além de um industrial (digamos assim) era representante de uma elite agrária e foi também prefeito do município. Quais os feitos em nível social que você lembra como essenciais para o povo ou inovadores na administração do seu pai?

Gilvan Guedes: De obra social do tempo de papai, eu não me lembro de nenhuma (risos). Papai não era bom administrador, até para algumas coisas do engenho, é tanto que ele nunca ia acompanhar o trabalho ou ir para dentro do plantio.

O grande feito social de papai, é que no tempo dele como prefeito não havia perseguição. Não tinha nem como fazer muito em termos de obras, naquela época as prefeituras não recebiam as verbas que vem hoje. Ele fez algo pela educação, lembro que comprou carros para levar estudantes para outras localidades. Até tinha políticos que o aconselhavam para que alguns alunos não fossem no carro da prefeitura e papai não aceitava essa visão, dizia: “a prefeitura é de todo mundo”. Não tinha ginásio aqui e os rapazes e moças iam para Macaparana ou Timbaúba estudar.

Não sei se ele lembra, mas na época, Zé Hélio era estudante e era de partido contrario ao de papai, Sandoval na época, disse a papai: “Pedro, num deixa ele ir no carro não, tu tai criando cobra pra te morder” e papai com aquele riso fino disse: “cobra só presta grande!”. (risos).

Cuca Livre: Em nossa visão, o Engenho Gracioso da Serra deveria ter sido preservado em sua estrutura original e se transformado ou ter sido aproveitado de maneira racional como um centro de história e cultura, embora a idéia da praça não fosse abolida. Como foi para o senhor presenciar a destruição de um patrimônio histórico-cultural de uma época?

Gilvan Guedes: Foi muito triste aquilo. Foi uma perca muito grande para o município. Foi no tempo da administração de Laete. Como é que um governante chega a destruir um patrimônio daqueles? Até poderia ser feitas áreas de praça nas áreas livres ao redor do engenho, lanchonetes e tal, mas sem destruir tudo. Usasse os barracões para a venda de artesanato e cultura.

Cuca Livre: Em sucessivas administrações municipais presenciamos a descaracterização da praça Pedro Pereira Guedes que inicialmente chamava-se praça Governador Moura Cavalcanti. Como o senhor encara essas atitudes para com esse patrimônio público do povo vicentino?

Gilvan Guedes: Isso é um absurdo! Porque ali não deveria nem ter bares, poluição sonora nem o lixo que a gente ver. Não podia ter aquilo tudo, nem lanchonete móvel deveria ter ali dentro, nos arredores sim. Aquilo que fizeram para os moto taxistas foi outro absurdo. Os meninos trabalham e mereciam um lugar, mas ali não. Acho que nem os meninos gostaram muito daquilo, nem usam.

Cuca Livre: Uma visão muito própria da equipe do jornal é que já que o engenho não existe mais, os órgãos de cultura e educação do município deveriam propor ações mínimas aos poderes da administração local como por exemplo: preparar uma espécie de outdoor com fotografias e relatos sobre o antigo engenho para ser postado na praça como uma maneira de registro e conhecimento público do que foi aquele espaço. É já uma dica, o senhor concorda com essa idéia?

Gilvan Guedes: É uma ótima idéia! Tem aqueles azulejos que fazem e que resistem ao tempo e que podem ser feitos com as informações, poesias, fotos e que é uma coisa linda.

Não sei porque também não aproveitaram aquela várzea na entrada da cidade. Existe um projeto pronto que foi prometido também fazer com lagoa e área de caminhada e etc.

Cuca Livre: Na história política do município sabemos que as ideologias e as lutas públicas muitas vezes são suprimidas por rancores pessoais. A praça como sendo um dos pontos mais destacados da cidade, sofreu ao longo dessas rinhas sendo o alvo dessas disputas. Como o senhor ver esse bem público servir de “porta voz” desses embates inúteis? Até a administração recente de seu irmão (Pedro Augusto Pereira Guedes – Pedoca) não ter dado o devido valor e atenção àquele patrimônio?

Gilvan Guedes: Acho horrível! Eu não sei o que Pedoca fez, ele poderia ter feito mais coisa em prol da história e da memória do povo. Ele não deu muita importância também não. Deveriam dar mais atenção.

Cuca Livre: Como o senhor, profissional que tem no beneficiamento da banana o alvo maior na representação dos produtos da terra, vê o incentivo dessa via?

Gilvan Guedes: Eles não dão importância, deveria se dar, mas atenção, fazer parceria com órgãos. Antigamente aqui em São Vicente tinha uma cooperativa dos agricultores (Cooperativa Dr. Manoel Borba) e era muito bom, possuíamos até tratores, comprávamos adubos e sementes mais barato, além de instrumentos agrícolas, hoje não tem mais, parece que andamos para traz.

O SEBRAE no Rio Grande do Norte levou a gente para a FISPA em São Paulo para divulgar os produtos, foi produto para o Japão, para Itália e etc. Já demos vários cursos por aí, lá fora as pessoas dão muito valor. O Globo Rural veio aqui outro dia nos entrevistar. O que falta é buscar apoio.

Bate Bola

Cuca livre: O mundo?

Gilvan Guedes: É belo.

Cuca livre: as pessoas?

Gilvan Guedes: Indispensáveis.

Cuca livre: uma tristeza?

Gilvan Guedes: É muito ruim

Cuca livre: uma possibilidade?

Gilvan Guedes: Sempre ter esperança.

Cuca livre: um gesto?

Gilvan Guedes: Sempre ser nobre.

Cuca livre: uma palavra?

Gilvan Guedes: Amizade.

Cuca livre: uma frase?

Gilvan Guedes: Encantadora

Cuca livre: um sonho?

Gilvan Guedes: Belo

Liberducação

Vagina patrimonial e as vertigens do Papai Noel”

No ano de 2006 fiz um trabalho monográfico solicitado como exigência para conclusão do curso em Especialização em História do Nordeste pela Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata – FFPNM, intitulada São Vicente Férrer: um patrimônio histórico a ser resgatado. Inúmeras foram as dificuldades para a conclusão deste trabalho, como: a obtenção de depoimentos das pessoas mais idosas da cidade, fotografias e fontes que me ajudassem a explicar melhor a importância em se preservar as construções e a memória das pessoas que tornaram possível a existência da cidade de São Vicente Férrer.

Após a apresentação do trabalho acima citado, a Professora e Drª Maria do Carmo e o Professor Luís Severino ambos professores da FFPNM me elogiaram pelo trabalho realizado e ousadia não apenas, por escolher um tema pouco explorado, com fontes limitadas, mas também por minha falta de preparação em relação ao campo patrimonial, visto que no período em que freqüentava a graduação não havia dentro de sua grade curricular uma disciplina sobre patrimônio.

em São Vicente Férrer os comentários sobre o trabalho que eu havia realizado não duraram mais que uma semana. Salvo algumas alunas do IV Normal Médio do ano passado Ana Márcia Leitão da Silva, Erilene de Souza Araújo e Renata da Silva as quais fizeram um trabalho com a mesma temática. O trabalho delas intitulado São Vicente, Nossa história... Nossa gente foi bastante comentado pelos professores no Normal Médio, mas, também em pouco tempo foi esquecido pela atratividade manifestada pelos DITOS NOVOS TCC - Trabalho de Conclusão de Curso.

Este ano estou participando na orientação de um TCC com muita alegria porque a temática do trabalho das alunas Ana Lígia dos Santos e Alexandra da Cunha Cavalcanti do IV Normal Médio é bastante semelhante aos das alunas-mestras do ano passado. O trabalho História e memória da Chã do Esquecido é muito mais que um trabalho, é também um grande desafio, pela ausência de fontes escritas e fotografias que remetam aos primeiros anos do povoamento da região. Acredito que esse trabalho sortirá um efeito positivo em pouco tempo entre os mais jovens, no que se refere ao conhecimento e apreciação da memória de seus antepassados. Não se entenda que os moradores da Chã do Esquecido sejam mais conscientes quanto a essas questões pertinentes aos patrimônios de sua localidade, porém, mais cuidadosos quanto à preservação das raízes que remetem a existência do grupo.

Todavia, tal reação é mais comum entre os moradores idosos. Ficando a cabo desses e da escola local a transferência da memória que estimula o sentimento de pertença, compreensão da existência de datas comemorativas vivenciadas no local, casarios antigos, praças, ruas, hospitais, etc. Sem essa contagem da história dos antepassados e das origens do lugar onde se vive, surge no âmago dos habitantes locais a frieza aos bens patrimoniais de qualquer espécie. Não se ver sentido em manter-se existente algo que remeta ao passado, ao velho, ao regresso.

A cidade de São Vicente Férrer – PE, também possui uma história, construída ao longo dos tempos e que se manteve viva através da memória dos mais velhos da cidade. Os objetos mais usados em períodos específicos do tempo analisado, os relatos das pessoas desde a mais alta camada social ao mais simples morador da localidade, os casarios, as igrejas, os engenhos, etc., são sem dúvida quando não comprovações, são indícios de existência dos habitantes que neste município residiram.

Todavia, pouca valia tem se dado aos bens patrimoniais e a própria memória dos primeiros moradores. Essa falta de preocupação pode ser perfeitamente visualizada em alguns atos depredatórios empreendidos por moradores de classes diversas, ausência de investimentos regulares com o intuito de preservação e manutenção das edificações mais antigas que remontam a história da cidade.

Esse último item concede significado ao objeto observado, permitindo ao observador liberar o campo de abstração pessoal para as reflexões, pertinentes à moda, às artes, à economia, à política, à religião e educação, tornando-se mais um conhecedor da história local, assim, as praças, igrejas e monumentos de natureza múltipla passam a ter significado, diminuindo as chances de novos ataques depredatórios aos bens patrimoniais locais.

No entanto, os casos de agressão ao patrimônio tem se manifestado com maior intensidade não por pessoas pertencentes a camadas inferiores ou de educação deficitária, mas, pelos próprios representantes do poder político de nossa cidade, e isso abre uma discussão em relação a preservação patrimonial.

Seria de fato a ausência de conhecimentos sobre as origens dos antepassados que estimulam a destruição de seus próprios bens? Existiria uma intenção por parte do agressor ao patrimônio público em preservar-se apenas o passado dos seus familiares fazendo uso do poder conferido de forma democrática e dita racional pelos seus súditos? Estaríamos vivenciando o tempo da ignorância da sabedoria, onde o que se aprende perde posição/espaço diante daquilo que se pode ganhar?

Durante muito tempo a educação escolar foi estigmatizada como a responsável por todos os desajustes da sociedade, contudo foram-lhe sempre negadas as condições mínimas de funcionamento. Acredito que a escola possui um papel muito importante na transmissão e na construção da sensibilização a preservação da história de um povo específico, tendo em vista que a execução dessa prática estimula a autonomia, e assim o individuo reúne mais elementos que podem culminar no reconhecimento próprio na comunidade em que está inserido, busca a integração com outros grupos da sociedade, objetivando a consolidação de uma coletiva e comum do patrimônio.

Porém, se faz necessário o investimento em educação, contudo, em uma educação voltada ao reconhecimento do patrimônio cultural de uma determinada comunidade, proporcionando a construção de uma série de significados para o educando, promovendo entendimento particular do indivíduo a cerca do meio em que vive (e mesmo do mundo), de caráter concreto e ordenador de seu pensamento e comportamento.

Nesta perspectiva, a educação patrimonial tem papel fundamental na preservação dos monumentos, na construção da cidadania e na perpetuação da memória. Portanto, cabe aos educadores e órgãos que financiam a educação, participar da preparação dos seus educadores, fornecendo-lhes os subsídios necessários, como também, o custeio de oficinas, palestras e seminários, na intenção de absorverem métodos que atualizem suas práticas, como também, o contato das gerações futuras com o patrimônio presente.

Escrito por: Daniel Ferreira

Professor de História e especialista em História do Nordeste

E-mail: prof_daniel.al@hotmail.com